As 10 razões que evidenciam que Moçambique vive uma ilusão de riqueza

Nos últimos anos, tornou-se comum ouvir promessas de que Moçambique, com os seus vastos recursos naturais, pode transformar-se numa potência económica em apenas uma década. Muitos cidadãos, cansados da pobreza e da instabilidade, acabam por abraçar essa ideia sem questionar os desafios reais e profundos que o país enfrenta. Contudo, um olhar crítico e analítico mostra que essa meta é uma ilusão perigosa, alimentada mais por discursos políticos do que por condições concretas.

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Estas são as 10 razões estruturais e conjunturais que explicam por que Moçambique não pode, realisticamente, tornar-se potência em 10 anos, a despeito das suas riquezas naturais.

1. Dependência excessiva dos recursos naturais

A história mundial mostra que a abundância de recursos não garante desenvolvimento automático. O chamado “paradoxo da abundância” já foi vivido por países africanos como Nigéria e Angola, onde o petróleo gerou riqueza para poucos, mas não criou desenvolvimento sustentável. Em Moçambique, o gás de Rovuma e o carvão de Tete podem repetir esse ciclo, se não houver gestão estratégica.

2. Corrupção endémica

A corrupção mina a confiança, destrói instituições e desvia recursos essenciais. Sem um sistema judicial independente e uma cultura de responsabilização, grande parte da riqueza do país continuará a beneficiar elites políticas e empresariais em vez da população.

3. Falta de infraestruturas estruturantes

Para ser potência, é preciso ter estradas, portos, energia e telecomunicações funcionais. Moçambique continua a ter estradas esburacadas, energia instável e serviços públicos precários. Sem esta base, não há como competir no mercado internacional.

4. Educação fragilizada

O sistema educativo moçambicano, com altas taxas de desistência escolar e fraca qualidade de ensino, não prepara cidadãos para competir num mundo tecnológico e globalizado. A riqueza de um país não depende apenas do subsolo, mas sobretudo do capital humano.

5. Conflitos armados e instabilidade

A insurgência em Cabo Delgado e as tensões políticas cíclicas criam insegurança, afastam investidores e destroem comunidades. Nenhum país em guerra interna ou em permanente instabilidade pode ascender ao estatuto de potência.

6. Endividamento e má gestão financeira

O escândalo das dívidas ocultas mostrou como Moçambique pode ser mergulhado numa crise profunda devido à irresponsabilidade governamental. O país continua a depender de ajuda externa, com finanças frágeis e sem autonomia para grandes investimentos estratégicos.

7. Forte dependência externa

Grande parte dos projectos de exploração de gás, carvão ou areias pesadas são controlados por multinacionais. Isso significa que os lucros saem do país, deixando apenas migalhas em impostos e alguns empregos temporários.

8. Agricultura atrasada

Embora a maioria da população viva da agricultura, esta continua a ser de subsistência, com pouca mecanização e baixo acesso a mercados. Um país não se torna potência sem garantir segurança alimentar e um sector agrícola competitivo.

9. Desigualdades sociais gritantes

Enquanto uma minoria enriquece, a maioria permanece em pobreza extrema. Um país com mais de 60% da população a viver abaixo da linha da pobreza não consegue projectar-se como potência, porque a riqueza não é distribuída de forma equitativa.

10. Planeamento estratégico inexistente

Moçambique vive de planos quinquenais e promessas eleitorais, mas carece de uma estratégia nacional de longo prazo, com metas claras, mensuráveis e realistas. Sem visão coerente, o futuro será ditado por improvisos.

A necessidade de realismo e consciência

Muitos moçambicanos deixam-se embalar pelos discursos políticos que vendem a ideia de uma “nação rica e poderosa em pouco tempo”. Essa narrativa cria ilusões perigosas, porque desvia o olhar das reformas necessárias e da luta contra os problemas estruturais.

É fundamental compreender que a verdadeira riqueza não nasce da exploração de gás ou carvão apenas, mas da construção de instituições sólidas, da aposta no conhecimento, da diversificação económica e do fortalecimento do cidadão comum.

Se não houver seriedade, transparência e compromisso colectivo, Moçambique continuará a ser um país rico em recursos, mas, pobre em desenvolvimento, alimentando apenas a ganância de uns poucos.

Moçambique não será potência em 10 anos, e reconhecer isso não é pessimismo, mas sim consciência crítica. Só a partir de diagnósticos realistas é que se pode exigir mudanças sérias e lutar por um futuro verdadeiramente sustentável. A ilusão da potência rápida apenas serve para manter as pessoas presas a discursos de ocasião, enquanto os problemas reais permanecem sem solução.

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