Dinis Tivane, porta-voz do partido Anamola, convocou a imprensa para apresentar as seis propostas legislativas que o partido submeteu ao Comité de Coordenação do Diálogo (COTE), no âmbito do Diálogo Nacional Inclusivo.
O partido, que pretende liderar em iniciativas legislativas, entregou as propostas por via electrónica ontem, antes do prazo limite de 15 de Dezembro. As propostas foram enviadas ao COTE e a outras 21 instituições, incluindo CIP, CDD e MASC. A entrega foi feita online devido à ausência de sede própria do COTE, que, segundo Tivane, “talvez por razões de alguma reserva económica, infelizmente ainda não dispõe de instalações”. Está prevista uma reunião presencial com o Dr. Edson Macuácua para os dias 4 ou 5 de Dezembro. O conjunto das antepropostas legislativas soma cerca de 500 páginas e visa enfrentar problemas estruturais relacionados com os incidentes eleitorais de 2023 e 2024.
Dinis Tivane explicou que as propostas nasceram de um processo de consulta pública, que incluiu consultas online e visitas presenciais a cidadãos.
Na proposta de revisão da Constituição, o Anamola defende a adopção de um sistema político semi-presidencialista. Neste modelo, o Presidente da República seria eleito directamente, enquanto o Primeiro-Ministro seria escolhido indirectamente. O sistema eleitoral de deputados passaria a ser misto, combinando listas uninominais, que permitem candidaturas independentes, e listas plurinominais. Essa mudança visa garantir o princípio do sufrágio directo (Artigo 73 da Constituição), já que o sistema actual, baseado em listas fechadas, é visto como uma “contravenção”, onde “os eleitores não teriam votado directamente nos candidatos”.
No novo sistema, o Presidente manteria poderes significativos, como Comandante-em-Chefe das Forças Armadas, decreto de estado de sítio ou emergência, promulgação de leis com prerrogativa de veto, indulto e a garantia da Constituição. Ele nomearia o Primeiro-Ministro, ouvido a Assembleia da República, podendo ainda demitir o Governo e dissolver a Assembleia.
O Primeiro-Ministro assumiria a gestão executiva diária do país, e a responsabilização do Governo perante a Assembleia da República seria uma inovação importante. Tivane criticou o sistema actual, que permite “excesso de triunfalismo” por falta de responsabilidade directa do executivo perante o parlamento. Segundo ele, os deputados não dispõem de ferramentas eficazes para fiscalizar o Governo, o que tem permitido situações de caos em entidades públicas, como a LAM e a CFM.
A proposta para a reforma da justiça inclui a despartidarização das instituições. Os presidentes dos tribunais superiores e do Ministério Público deveriam ser eleitos pelas respectivas magistraturas. O Presidente da República deixaria de nomear reitores universitários, que passariam a ser indicados pelos conselhos universitários. O Tribunal Supremo ficaria responsável pela validação dos resultados eleitorais e recursos, cabendo ao Conselho Constitucional julgar apenas questões eleitorais de foro constitucional.
No Ministério Público, Tivane questionou o papel actual da instituição, citando o caso das dívidas ocultas: “Pretendemos que, por exemplo, o ex-presidente da República responda perante a justiça, mas a Procuradoria aparece a defendê-lo, o que não faz sentido”. Para ele, o Ministério Público deve ser o garante da legalidade, e não o defensor do Estado infractor.
Entre as alterações eleitorais, destaca-se a exigência de que o número de boletins de voto em cada urna seja igual para todas as eleições simultâneas, sob pena de nulidade. A Comissão Nacional de Eleições (CNE) passaria a ser Comissão Eleitoral Independente (CEI), composta principalmente por magistrados e membros da Ordem dos Advogados, com vice-presidência rotativa anual para garantir a partilha de poder. Os membros da CEI teriam de suspender a militância partidária, sob pena de crime de desobediência.
Para combater fraudes, o STAE deverá cadastrar contactos telefónicos e e-mails dos eleitores, permitindo o envio directo dos resultados a cada eleitor. Os resultados oficiais deveriam ser anunciados até o quinto dia após o encerramento das urnas, com divulgação imediata dos resultados parciais na própria mesa de voto, eliminando espaço para manipulações.
No âmbito das autarquias locais, o partido propõe o fim do princípio “winner takes all” (o vencedor leva tudo). A governação local deve ser inclusiva, democrática e representativa, permitindo que partidos com 30% ou 40% da votação tenham direito a indicar vereadores e chefes de quarteirão. Tivane enfatizou que “aqui temos verdadeira inclusão, isso sim é democracia”. O sistema promoverá a apresentação de candidatos competentes, com a fiscalização directa da vizinhança.
A proposta de Lei de Crimes de Responsabilidade visa instituir a possibilidade de destituição constitucional de altos cargos, incluindo o Presidente da República, com base em crimes como o contacto com governos estrangeiros para atos hostis contra o Estado. Tivane reforçou a necessidade de responsabilização: “Temos que entender o que levou a certas decisões. Não podemos continuar vendo fraudes enquanto os responsáveis estão impunes”.
Entre outras mudanças constitucionais, o partido sugere alterar a idade de maioridade civil para 18 anos e conferir ao Provedor de Justiça o poder de censura pública. Um destaque polémico é a proposta de alteração da Bandeira Nacional, retirando a figura da AK-47. Tivane justificou que a arma, símbolo da empresa russa Kalashnikov Concern Group, é vista como um símbolo de terrorismo, dificultando a prática religiosa de muçulmanos moçambicanos, especialmente na exibição da bandeira em Meca. “A AK-47 é um produto privado e símbolo de terrorismo. Por que manter algo que impede 20% da população de se sentir plenamente moçambicana?”, questionou.
O porta-voz do Anamola manifestou o desejo do partido de participar na fase de harmonização das propostas no COTE, onde as ideias serão debatidas com outras forças políticas. No entanto, apontou que a Frelimo e até alguns partidos da oposição, como Renamo, MDM e Podemos, têm dificultado a participação da Anamola, motivados pelo “medo de perder protagonismo”.
Tivane afirmou acreditar na persistência e usou o provérbio popular: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Ele espera que haja sensatez para evitar que o país mergulhe num caos maior do que o de 2024. Finalizou destacando que a verdadeira governação deve ser inclusiva e que o excesso de poder gera ineficiência. Para ele, “a confiança pública é o bem mais precioso do Ministério do Interior e do nosso Estado moçambicano”.
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