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Amargo, picante, ácido, doce: Como os sabores da África chegaram à China

O amargor suave do café etíope, o calor escaldante de uma pimenta ruandesa, a acidez vibrante de uma safra sul-africana, a doçura melada de um ananás beninense — desde 1 de maio de 2026, a eliminação das tarifas pela China sobre produtos de 53 países africanos está a levar esses sabores, e muitos outros, às mesas chinesas.
Por Yang Dingdu e You Huiyuan

O comércio que atravessa milhares de quilómetros nunca foi apenas uma questão de tonelagem; é onde o sabor encontra a vida.

AMARGO: A ROTINA DIÁRIA

A Etiópia é o berço do café Arábica. Conta a lenda que, há cerca de mil anos, um pastor no planalto sudoeste de Kaffa descobriu as propriedades energizantes do cafeeiro. Desde então, a terra nunca deixou de produzir grãos.

Hoje, o país produz cerca de 600 mil toneladas de café por ano. Para aproximadamente 25 milhões de pessoas — cerca de um quinto da população — o café é a base do sustento e a principal exportação nacional.

No entanto, para agricultores como Tesfaye Gabru, a economia do café sempre teve um gosto amargo. Gerações de produtores carregaram grãos cuidadosamente cultivados por trilhos montanhosos até pontos de compra locais, apenas para receber preços que pouco refletiam o esforço investido.

As incertezas dos mercados globais, o clima instável e a limitada capacidade de processamento interno fizeram com que grãos de alta qualidade raramente alcançassem preços justos. Esse desequilíbrio — repetido ano após ano — é o verdadeiro amargor por trás do café.

A crescente procura chinesa começa a mudar esse cenário. Com o aumento das encomendas, a empresa AWO Coffee, de Gabru, redirecionou praticamente toda a sua exportação para a China.

A procura constante permite melhores margens para pequenos produtores e a expansão do emprego durante a colheita. A política de tarifa zero deu ainda mais confiança a Gabru, que agora planeia construir a sua própria unidade de torrefação nos arredores de Adis Abeba.

Empresas chinesas também estão a aproximar-se da origem. A Changsha Saturnbird Coffee assinou recentemente um acordo estratégico com parceiros etíopes, criando um corredor logístico direto que liga as terras altas africanas ao coração da província chinesa de Hunan.

Um trabalhador verifica o sabor do café em uma fábrica de processamento de café em Adis Abeba, Etiópia, 13 de fevereiro de 2026. (Xinhua/Xie Jianfei)

PICANTE: UMA AMBIÇÃO ARDENTE

Herman Uvizeyimana passou anos a estudar na China, onde observou como produtos chineses acessíveis conquistavam mercados globais. Ao regressar ao Ruanda, em 2018, entrou no comércio bilateral.

Mas o doutorado pela Academia Chinesa de Ciências tinha uma ambição maior: não apenas importar produtos, mas exportar bens ruandeses para gerar rendimento real para os agricultores locais.

Em 2021, surgiu a oportunidade: a pimenta seca do Ruanda ganhou acesso ao mercado chinês. Com um nível de picância quatro vezes superior ao padrão, o produto tinha potencial num dos maiores mercados consumidores de especiarias do mundo.

O início foi difícil. A cultura era pouco comum no país e os agricultores estavam céticos. Uvizeyimana liderou pelo exemplo, trabalhando diretamente no campo, aprendendo técnicas de cultivo e processamento. No primeiro ano, apenas um contentor foi exportado.

Persistente, ele passou a formar agricultores, recolher produção e supervisionar o processamento para garantir qualidade. Aos poucos, a confiança cresceu. No segundo ano, as exportações chegaram a 10 contentores.

Hoje, a sua empresa, Fischer Global, exporta entre 200 e 300 toneladas de pimenta seca por ano para a China, com uma área cultivada de cerca de 300 hectares.

ACIDEZ: A VANTAGEM DA SAFRA

Trabalhadores trabalham na fábrica agrícola Fisher Global no Parque Industrial de Rwamagana, Província Oriental, Ruanda, em 14 de abril de 2026. (Xinhua/Ju Yinhe)

Na África do Sul, as linhas de engarrafamento da propriedade vinícola Diemersdal, na Cidade do Cabo, operam continuamente, com grande parte da produção destinada à China.

Com raízes vitivinícolas que remontam a 1659, os vinhos sul-africanos destacam-se pelo seu carácter equilibrado: notas frutadas, mineralidade e uma acidez marcante.

Barris de carvalho estão disponíveis na unidade de produção da Diemersdal Wine Estate em Durbanville, Cidade do Cabo, África do Sul, em 31 de março de 2026. (Xinhua/Wang Lei)

Apesar de 17 anos no mercado chinês, os vinhos sul-africanos enfrentaram dificuldades para competir com os europeus, devido a tarifas e custos logísticos elevados.

A política de tarifa zero surge como um ponto de viragem. Ao eliminar encargos, os benefícios estendem-se por toda a cadeia de valor, aumentando a competitividade e a presença no mercado chinês.

DOCE: OS FRUTOS DO TRABALHO

Farmers pack freshly harvested pineapples in the commune of Ze, a major pineapple producing area in southern Benin, March 16, 2026. (Photo by Seraphin Zounyekpe/Xinhua)

No Benim, o ananás “Sugarloaf” é conhecido pela sua doçura intensa e baixa acidez. Este fruto é um pilar económico do país, com produção anual de cerca de 450 mil toneladas.

Para agricultores como Tchegbenangnon Lanmandoclevo, a abundância já foi um problema: excesso de produção significava perdas, devido à limitação do mercado local.

Com o acesso ao mercado chinês em 2023, o cenário mudou. O produto ganhou destaque na Exposição Internacional de Importação da China, garantindo encomendas significativas.

Atualmente, Lanmandoclevo triplicou a sua plantação. A política de tarifa zero promete ampliar ainda mais as oportunidades, promovendo modernização rural, emprego e melhoria das condições de vida.

O sabor, afinal, é uma linguagem universal. Como diz um antigo provérbio africano: “Eu sou porque nós somos.” À medida que o vasto mercado consumidor chinês se abre à África, os sabores do continente tornam-se uma prova concreta de um destino partilhado entre povos separados por mares e montanhas.

Naldo Agostinho

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