‘Grande passo em frente’: militares de Mianmar enfrentam caso de genocídio de Rohingya no tribunal da ONU


“FFinalmente, sinto que as nossas vozes estão a ser ouvidas e que algo vai acontecer que será positivo para a comunidade”, afirma Monaira*. Ela foi forçada a fugir da sua casa em Mianmar em 2017, quando os militares lançaram as chamadas operações de desminagem nas aldeias Rohingya.

Durante a violência, seu irmão foi levado por soldados militares, morto a tiros e sua casa incendiada. “As crianças foram atiradas ao fogo diante dos meus olhos”, diz Monaira, que foi violada por militares.

Ela está entre os sobreviventes da repressão brutal dos militares de Mianmar à minoria Rohingya do país, muitos dos quais esperam dar um passo mais perto da tão esperada justiça na segunda-feira, quando um caso histórico de genocídio for aberto no tribunal superior da ONU, o Tribunal Internacional de Justiça (CIJ).

O caso, que foi apresentado pela Gâmbia, centra-se em operações militares em 2016 e 2017 que forçaram mais de 700 mil Rohingya a fugir para o vizinho Bangladesh.

“Exigimos justiça”, diz Monaira, que viajou do campo de refugiados de Cox’s Bazar, no Bangladesh, para Haia para ouvir audiências.

O processo é o primeiro caso de genocídio que o TIJ ouve a este nível em mais de uma década e é provável que estabeleça um precedente para a forma como futuras alegações serão avaliadas, incluindo o caso da África do Sul que acusa Israel de genocídio.

A Gâmbia apresentará os seus primeiros argumentos de segunda a quinta-feira. Acusou os militares de Myanmar de realizarem operações sistemáticas de desminagem contra os Rohingya e de cometerem assassinatos em massa, violações e incendiarem aldeias, com a “intenção de destruir os Rohingya como grupo, no todo ou em parte”.

Mianmar negou a alegação de genocídio e apresentará os seus argumentos de 16 a 20 de janeiro. Excepcionalmente para o tribunal, os sobreviventes prestarão depoimento no caso. O processo terminará em 29 de janeiro.

Anteriormente, Aung San Suu Kyi, 80 anos, viajou ao tribunal para defender Mianmar contra as alegações de genocídio. Ela está detida a mando dos militares, que tomaram o poder em Fevereiro de 2021, mergulhando o país numa guerra civil.

Tun Khin, presidente da Organização Birmanesa Rohingya do Reino Unido, afirma que após décadas de violações do direito internacional, o caso do TIJ marca “a primeira vez que os militares birmaneses estão em tribunal tendo de se defender”.

“É um grande passo em frente no longo caminho para a justiça e a responsabilização”, afirma Tun Khin, que também é presidente do Conselho Nacional Arakan Rohingya.

Em 2020, o TIJ impôs “medidas provisórias” de emergência a Mianmar, ordenando-lhe que prevenisse a violência genocida contra a minoria Rohingya e preservasse quaisquer provas de crimes passados. No entanto, grupos de direitos humanos dizem que os militares continuaram a cometer atrocidades.

‘Grande passo em frente’: militares de Mianmar enfrentam caso de genocídio de Rohingya no tribunal da ONU

Milhares de refugiados Rohingya em Cox’s Bazar, Bangladesh, celebraram o Dia em Memória do Genocídio em agosto de 2025, marcando oito anos desde o seu êxodo em massa de Mianmar após uma repressão militar brutal. Fotografia: Piyas Biswas/Sopa/Shutterstock

Shayna Bauchner, pesquisadora asiática da Human Rights Watch, diz que os “ciclos viciosos de abuso e impunidade” dos militares de Mianmar precisavam acabar. “Isto deveria começar com os governos obrigando a junta a cumprir a sua obrigação legal de cumprir as medidas provisórias ordenadas pela CIJ.”

O caso do TIJ não é um processo criminal contra indivíduos, mas determinará se Mianmar violou as suas obrigações ao abrigo da convenção sobre o genocídio.

Separadamente, em 2019, o procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI) abriu uma investigação sobre alegados crimes contra os Rohingya e, em 2024, o procurador do TPI solicitou um mandado de detenção para Min Aung Hlaing, comandante-chefe das forças armadas de Mianmar, alegando crimes contra a humanidade.

O caso do TIJ poderia estabelecer um precedente para a forma como o genocídio é definido, incluindo se a intenção genocida pode ser inferida a partir de padrões cumulativos de violência, deslocamento e retórica, em vez de ordens explícitas.

Antonia Mulvey, fundadora e diretora executiva da Legal Action Worldwide, que trabalhou com centenas de sobreviventes da repressão militar, afirma: “Numa altura em que assistimos ao aumento dos conflitos armados, dos ataques às instituições de justiça internacionais, dos ataques ao direito internacional e aos direitos humanos, nunca poderá ser um momento mais importante para começar 2026 com um caso como este.”

Uma sentença pode ser emitida dentro de seis a 12 meses, diz ela. Mesmo que as ordens do tribunal não sejam implementadas no actual ambiente em Mianmar, ainda assim representariam um passo crucial em frente, acrescenta Mulvey.

“Não esqueçamos que as situações podem mudar e da noite para o dia pode haver uma mudança de governo, e a ordem judicial permanecerá”, diz ela, acrescentando que o caso também oferecerá o tão esperado reconhecimento do que o povo Rohingya tem suportado.

*O nome foi alterado

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