No encerramento dos debates das equipas de trabalho de 2025, no âmbito do Diálogo Nacional Inclusivo, uma mesa redonda dedicada às reformas económicas reuniu, em Maputo, economistas, académicos e activistas sociais para discutir o futuro produtivo de Moçambique. O encontro ficou marcado por críticas directas à excessiva dependência das importações e ao persistente subinvestimento no sector agrário, apontado como a base negligenciada da economia nacional.
Segundo noticia o canal STV Notícias no seu canal do YouTube, os participantes defenderam que as políticas públicas devem ser desenhadas a partir das necessidades reais dos agregados familiares, tanto nas zonas rurais como urbanas, colocando a produção nacional no centro da estratégia económica.
Graça Machel Propõe uma “Agenda Nacional de Alimentos”
A activista social Graça Machel defendeu que a organização da economia deve ser feita “com os olhos postos nas pessoas”, priorizando não apenas a alimentação, mas também o acesso à água, energia e habitação condigna como pilares essenciais do bem-estar social. Para Machel, a política agrícola não pode continuar dependente de decisões isoladas de governantes de turno.
“Não deve depender apenas do ministro da Agricultura decidir como organizar a agricultura. Tem de ser uma agenda do próprio Estado”, afirmou, defendendo a criação de uma Agenda Nacional de Alimentos que assegure continuidade, recursos e coerência independentemente de quem lidera o sector.
Graça Machel mostrou-se igualmente favorável às recentes medidas de restrição à importação de alguns produtos, questionando por que razão o tomate importado da África do Sul chega aos mercados nacionais a preços mais baixos do que o produzido em zonas como Chókwè ou Boane. Para a activista, Moçambique precisa abandonar o modelo de economia “rentista” e assumir a produção interna como prioridade estratégica.
O Gargalo das Infraestruturas e o Desperdício da Produção
Outro ponto crítico abordado durante o debate foi a dificuldade de escoamento da produção agrícola devido ao mau estado das vias de acesso, situação que compromete a segurança alimentar e desincentiva os produtores nacionais. Foram apresentados exemplos concretos:
- Angónia (Tete): Apesar de ser uma região com elevada produção de batata, grande parte do produto não chega aos centros de consumo por inexistência ou degradação das estradas.
- Pambara (Inhambane): O produtor Abel Antunes, com capacidade para abastecer a zona sul do país com frangos e ovos, vê os seus camiões frequentemente impedidos de circular devido às más condições da via de acesso.
Estes constrangimentos transformam a produção nacional em desperdício e mantêm o país dependente de importações que poderiam ser evitadas.
Prakash Ratilal: “Não é possível fazer omeletes sem ovos”
O economista Prakash Ratilal apresentou dados que considera alarmantes sobre o fraco apoio financeiro ao sector agrícola. Segundo Ratilal, menos de 2% do crédito bancário é destinado à agricultura, enquanto o apoio directo do Estado não ultrapassa os 4%, números incompatíveis com o discurso oficial de desenvolvimento rural.
O economista criticou ainda a estrutura do sistema financeiro nacional, sublinhando que 95% do sistema bancário é dominado por capitais estrangeiros.
“Um banco comercial opera para ter lucros. Não está preocupado com a agricultura, mas sim com o empréstimo que faz e com a garantia de retorno”, explicou.
Ratilal alertou também para o subfinanciamento da investigação agrária, que recebe menos de 2% da dotação estatal, concluindo que “não é possível fazer omeletes sem ovos”. Sobre o Fundo Soberano, defendeu que este não deve limitar-se a acumular recursos para o futuro, mas actuar de forma activa, participando em grandes investimentos estratégicos e parcerias com multinacionais.
Reformas Constitucionais na Economia
O debate abriu igualmente espaço para reflexões sobre possíveis reformas institucionais de fundo. Entre as propostas discutidas, destacou-se a ideia de introduzir na Constituição da República um limite máximo ao número de ministérios, sugerindo-se 22, bem como a definição de perfis técnicos rigorosos para cada pasta, de modo a evitar o inchaço da máquina administrativa e promover maior eficiência governativa.
Analogia para Compreensão:
O retracto da agricultura moçambicana traçado pelos oradores assemelha-se a um atleta de alta competição obrigado a correr uma maratona mal alimentado. Sem o “alimento” do crédito, da investigação e das infraestruturas adequadas, e com o percurso cheio de obstáculos, o país continua a importar aquilo que poderia produzir internamente, adiando, mais uma vez, a sua independência económica.





