Brasileiros têm aceitado propostas de emprego atraentes para trabalhar no Sudeste Asiático. Essas ofertas prometem salários entre três e cinco mil reais (R$ 3.000 ≈ MTn 36.100; R$ 5.000 ≈ MTn 60.200), além de moradia e alimentação incluídas. Contudo, o trabalho oferecido é, na maioria das vezes, telemarketing.
No entanto, ao chegarem ao destino, as vítimas percebem que o trabalho consiste em aplicar golpes contra outros brasileiros. Dessa forma, muitas pessoas enfrentam coação, engano e impedimento para sair, configurando o crime de tráfico de pessoas.
Logo ao chegar, as vítimas encontram um esquema fraudulento bem estruturado. Daniela, uma das vítimas, recusou participar do golpe e, por isso, foi demitida. Os patrões exigiram o pagamento de uma multa, ameaçando prendê-la caso o valor não fosse pago em três dias.
A família de Daniela fez vários pagamentos: R$ 2.400 (≈ MTn 28.900), R$ 12.000 (≈ MTn 144.500), R$ 2.000 (≈ MTn 24.100) e R$ 4.000 (≈ MTn 48.200), totalizando R$ 27.000 (≈ MTn 325.000). Mesmo assim, o dinheiro desapareceu e Daniela foi presa.
A família acredita que Daniela foi vítima de uma armadilha: “Eles colocaram droga no banheiro para prendê-la”. Actualmente, Daniela está detida em Sisofon, na fronteira entre Camboja e Tailândia, acusada de porte de drogas.
Na prisão, Daniela enfrenta condições desumanas. Ela ficou “com a roupa do corpo, sem banho, dormindo no chão como um animal”. Além disso, relatou que precisa pagar por tudo, inclusive para comer, e usar o celular da agente penitenciária para falar com a família.
Recentemente, a mãe de Daniela, Miriam, recebeu a informação de que o julgamento está marcado para o dia 23 deste mês. Por isso, Miriam tem feito preces “que apontam para o outro lado do mundo”.
As vítimas que trabalham no esquema sofrem pressão e tortura constantes. Uma delas relatou: “Ficavam com taser atrás de você”. Diego, outra vítima, passou dias sem comer, apanhando em quarto escuro, até aceitar cumprir as metas impostas. Já Lucas, também resgatado, afirmou: “Eles bateram na gente no último dia”.
Diego disse que os criminosos destruíram sua vida, fazendo-o dormir no chão por seis meses, num local cheio de baratas e ratos. Além disso, a alimentação era péssima.
Os golpistas simulam atendimentos policiais para enganar as vítimas, agindo especialmente de madrugada, para coincidir com o fuso horário brasileiro.
O golpe ocorre em três etapas:
Os golpistas seguem roteiros para variar o tom, iniciando de forma amigável e depois tornando-se ameaçadores.
Lucas aceitou proposta de trabalho nas Filipinas, acumulando dívida superior a 10.000 dólares (≈ MTn 120.400). Depois, viajou para a Tailândia, onde foi levado ao Kakap Park, em Myanmar, um complexo de golpes e tortura.
Após quatro meses, conseguiu escapar. Ele relatou agressões e longos períodos em posições desconfortáveis. Por isso, sua mãe, Cleade, e o pai de outra vítima procuraram a Polícia Federal.
A reportagem identificou uma rede que envolve dezenas de vítimas, incluindo Fabiana Magante, Karen Silva e Rodrigo.
Fabiana e Karen recrutam brasileiros para trabalhar em empresas que aplicam golpes online. Clientes perdem grandes quantias em segundos — R$ 50.000 (≈ MTn 602.000) ou R$ 60.000 (≈ MTn 722.000).
Rodrigo, secretário de Fabiana, ganhava comissão de R$ 4.000 (≈ MTn 48.200) por pessoa recrutada. Ele negou envolvimento, mas foi acusado por Fabiana de tráfico humano.
Fabiana e Karen controlam o grupo “Brasileiros Mundo Afora” no Telegram, com 107 membros, onde divulgam vagas. A agência TCGC, que contratou Daniela, está ligada ao grupo.
Diego apresentou contracto da empresa GUAE, ligada a Fabiana e Karen. O documento cobrava taxa de assessoria de R$ 3.000 (≈ MTn 36.100) e outras taxas, debitadas do primeiro salário via transferência para o CPF de Karen.
Diego foi recrutado como tradutor e só descobriu o golpe ao chegar e ter passaporte tomado. A maioria desconhecia o esquema.
Fabiana posta vídeos nas redes sociais anunciando vagas para call centers e recebe os brasileiros em sua casa adaptada para isso. Apesar disso, 12 pessoas afirmam que Fabiana e Karen recrutam para golpes.
Uma vítima resumiu: “Fabiana compra você e revende para os chineses”.
Fabiana negou as acusações, afirmou que o trabalho nas Filipinas era legal e acusou Rodrigo de ser o verdadeiro traficante. Ela negou inicialmente conhecer Karen, mas depois disse que conhece “muitas Karen” e que Karen a chama de “chefe”.
Quando questionada sobre tráfico humano, Fabiana disse que seu caso é trabalho escravo, não tráfico.
Karen também negou envolvimento em golpes. Afirmou que “todos sabiam o trabalho” e negou relação com TCGC e Daniela.
André Cunha foi preso em 2022 e condenado a 18 anos por organização criminosa, tráfico de pessoas e escravidão.
Ele actuava no Kakap Park e aliciava brasileiros por comissão de R$ 1.000 (≈ MTn 12.000) cada.
Negou aliciamento, mas admitiu organizar grupos para viagens rápidas.
Os 12 brasileiros aliciados só saíram após mobilização internacional. Vítimas destacam importância da condenação para punir o crime.
Drama da Repatriação de Gabriel
A família de Gabriel luta há três meses para repatriar seu corpo do Camboja. Gabriel morreu meses após chegar atraído por salários entre R$ 3.000 e R$ 5.000 (≈ MTn 36.100 a MTn 60.200).
A Defensoria Pública pediu ajuda financeira ao governo brasileiro, mas foi negada. Decreto presidencial determina que o Estado arque com custos em casos de falta de condições financeiras, mas burocracia atrasa o processo.
O corpo está sob guarda de funerária privada, pois o Camboja não tem serviço público de custódia, o que aumenta os custos.
Especialistas afirmam que o governo não pode fugir da responsabilidade de repatriar vítimas de tráfico.
Gabrielle, irmã de Gabriel, diz que só aceitará a perda quando o corpo for repatriado e velado: “Minha ficha vai cair quando trouxermos o corpo e fizermos o velório”.
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