Quatro voos do anjo Diogo garantem nulo enganador (crónica)


MIAMI — O futebol tem destas partidas de xadrez em que o equilíbrio se conquista ao milímetro. Quem viu a Seleção Nacional recolher aos balneários do Hard Rock Stadium sob o sufoco asfixiante do carrossel cafetero, percebeu que a segunda parte exigia mais critério do que uma revolução.

Roberto Martínez leu o tabuleiro com lucidez e ajustou peças para estancar a vertigem adversária. As entradas de Diogo Dalot e João Neves permitiram a Portugal dividir as despesas do jogo, resgatando preciosos minutos de posse de bola e acalmando o vulcão que ameaçava incendiar nossa retaguarda.
A nova ordem em campo trouxe um crescimento gradual e o manifesto de revolta luso não demorou a se fazer notar. Logo aos 51′, Diogo Dalot, saindo do banco para colocar uma camisa de força em Luis Díaz, subiu pelo flanco direito e desenhou um cruzamento perfeito, daqueles com conta, peso e medida. A bola viajou com precisão geométrica até João Félix, que testou os corações sul-americanos com uma cabeçada levemente por cima da trave. Não foi gol, mas o aviso estava dado: Portugal não passava mais o tempo apenas se defendendo; conseguia ferir e assustar no ataque.

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Contudo, um animal ferido no seu próprio continente é sempre um perigo latente e a Colômbia nunca perdeu o controlo emocional da partida. Impulsionada pelo rugido imparável das bancadas amarelas, a formação colombiana respondeu com a fúria que lhe é caraterística, obrigando a dupla de centrais lusa a assinar o melhor jogo até agora no torneio.

Diante do calvário físico e mecânico de um visivelmente fustigado Nuno Mendes na ala esquerda, os centrais se multiplicaram em dobras e coberturas, limpando os caminhos da grande área com uma sobriedade que se mostrou absolutamente imperial. O miolo ganhou outra coesão com a energia contagiante de João Neves, mas o perigo rondava a meta lusa com uma ironia deliciosamente doméstica.

Com as entradas de Richard Ríos e Luis Suárez, o clássico derby da Segunda Circular de Lisboa se mudava para Miami. Ríos quase quebrou o placar aos 62, em tiro de primeira que raspou a tinta da trave. Pouco depois, aos 65′, foi Luis Díaz quem criou perigo em rotação supersônica, aproveitando uma fresta de espaço pela esquerda para forçar nossa linha defensiva a olhar, mais uma vez, nos olhos do abismo.
Foi então que o jogo se transformou em um thriller de alta tensão, elevando, novamente, ao status de lenda o guardião das quinas. Naquela que será lembrada como uma noite de consagração, nosso anjo da guarda operou milagres.

Aos 66′, Arias disparou, mas Diogo Costa voou para segurar o nulo. Logo depois, aos 74′, James Rodríguez armou um míssil potentíssimo, mas se chocou contra a coragem de Renato Veiga, titã sempre no lugar certo na hora certa.
A vinte minutos do fim, Martínez lançou o músculo de Samú Costa e a velocidade de Rafael Leão, o homem que trazia na passada larga a memória do gol contra o Uzbequistão. Portugal quis crescer e empurrou a Colômbia a dez minutos do fim, mas a reta final guardava um drama apocalítico. Aos 88′, Rúben Dias vestiu a capa de herói para afastar um gol certo em cima da linha e, no segundo seguinte, Diogo Costa assinou sua quarta grande defesa da noite.
O verdadeiro golpe de teatro chegou a 90+1′. A Colômbia chegou a gritar gol em lance que traria justiça ao placar, mas o VAR descortinou impedimento milimétrico e salvador.
Com esse sofrido 0 a 0, Portugal garante a segunda colocação do Grupo K e carimba o passaporte para Toronto, onde enfrentará a Croácia nas oitavas de final, na madrugada do dia 3 de julho.
No outro jogo do grupo, a RD Congo bateu o Uzbequistão por 3-1 em Atlanta, com Shomurodov a faturar para os uzbeques, e Mayele e um bis de Wissa a darem a volta.


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