Governo espera arrecadar cerca de 76,8…

Maputo, 19 Mai (AIM) – O governo moçambicano espera arrecadar este ano cerca de 76,8 milhões de dólares americanos provenientes das receitas da exploração de Gás Natural Liquefeito (GNL).

Segundo Carla Louveira, Ministra das Finanças, falando num seminário realizado segunda-feira, em Maputo, cerca de 30,7 milhões de dólares deste montante serão canalizados para o Fundo Soberano do país e “o restante será destinado ao Orçamento do Estado para financiar as despesas previstas no Plano Económico e Social e no Orçamento do Estado (PESOE-2026)”.

“O sucesso do Fundo Soberano depende não só dos recursos financeiros, mas sobretudo da robustez das instituições, da qualidade da governação, da competência técnica, da integridade dos processos e da confiança dos nossos cidadãos”, afirmou.

“A Lei do Fundo Soberano estabeleceu uma arquitectura de governação que inclui supervisão parlamentar, auditoria independente, monitorização e publicação periódica de informação”, acrescentou.

O ministro revelou ainda que o governo arrecadou 109,9 milhões de dólares provenientes da produção de gás. “A confiança pública baseia-se na transparência, na responsabilização, na supervisão eficaz e na participação pública informada”, disse ela.

Segundo Louveira, os recursos do gás canalizado atribuídos ao Orçamento do Estado estão sujeitos a mecanismos de responsabilização através de relatórios trimestrais, semestrais e anuais da Conta Geral do Estado, submetidos ao parlamento e ao Tribunal Administrativo.

O governo, disse ela, pretende garantir que o Fundo Soberano seja gerido com elevados padrões de profissionalismo, responsabilidade e visão estratégica, transformando-o num instrumento de estabilidade económica e desenvolvimento sustentável.

“O Fundo Soberano não deve ser visto apenas como uma reserva financeira do Estado. É também um instrumento estratégico de política pública, com impacto direto na revisão financeira do país e na resiliência da economia nacional face aos choques internos”, afirmou.

O ministro elogiou também o apoio do governo norueguês, especialistas e parceiros que têm colaborado com Moçambique através da partilha de experiências internacionais relevantes. “Moçambique encontra-se num momento crucial da sua trajectória económica. O início da monetização dos recursos de gás natural representa uma oportunidade histórica para acelerar o desenvolvimento económico e social do país”, afirmou.

Por seu lado, o diretor-adjunto e coordenador do Banco de Moçambique, Cláudio Mangue, destacou a necessidade da elaboração do plano diretor de investimento do Fundo Soberano, “que nos permitirá implementar a estratégia de aplicação de recursos”.

“Propomos, de boa-fé, uma gestão proativa para garantir que os valores não fiquem ociosos”, disse.

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Administrador de Quissanga preso – aimnews.org

Maputo, 18 Mai (AIM) – A Polícia de Moçambique (PRM) deteve Sidone José, administrador do distrito de Quissanga, na província nortenha de Cabo Delgado, por alegado envolvimento no roubo de donativos destinados às vítimas do terrorismo islâmico naquela região.

José foi detido na noite de quinta-feira, na cidade de Pemba, capital de Cabo Delgado, depois de as autoridades terem interceptado uma viatura que transportava uma carga de alimentos de origem duvidosa. No interior do veículo foram apreendidos vários sacos de arroz e outros artigos para ajuda humanitária.

O administrador foi preso junto com outros quatro indivíduos, também acusados ​​de envolvimento no roubo de doações

Segundo fontes, alguns dos produtos apreendidos foram doados pelo Programa Alimentar Mundial (PAM) para apoiar “pessoas deslocadas e famílias que regressam a Quissanga, um dos distritos mais afectados pelo terrorismo”.

Em Fevereiro passado, as autoridades anunciaram a detenção de altos funcionários do Conselho Municipal de Xai-Xai, na província de Gaza, no sul, por também estarem envolvidos no roubo de donativos destinados às vítimas das catastróficas cheias que assolaram grande parte da cidade de Xai-Xai em Janeiro. Argelencia Unguana, uma das detidas, era administradora de Xai-Xai.

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Detido Taxista suspeito de matar Médico sul-africano em Chókwè

O Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) deteve um taxista suspeito de participação no assassinato de um médico sul-africano no distrito de Chókwè, província de Gaza.

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Outro membro da Anamola morto a tiros em Gaza –…

Maputo, 18 Mai (AIM) – Outro membro da Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (Anamola), o partido político liderado pelo ex-candidato presidencial Venâncio Mondlane, foi morto a tiro na sexta-feira por agressores desconhecidos.

A vítima em questão é Pedro Chauke, membro da Anamola na região de Mucambene, distrito de Massagena, província sul de Gaza.

Segundo testemunhas, ele foi morto a tiros em sua casa. Os criminosos também roubaram seu carro.

A Polícia de Moçambique (PRM) ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Esta é mais uma agressão contra aqueles que apoiam Mondlane em menos de uma semana. Recentemente, assaltantes desconhecidos mataram a tiro Anselmo Vicente, coordenador político da Anamola na cidade de Chimoio, província central de Manica.

A morte de Vicente foi seguida de três dias de “luto nacional” convocados por Mondlane. Durante o luto, que teve como objectivo protestar contra o assassinato de membros da Anamola em geral, Mondlane incentivou o uso de roupa preta para que “todas as pessoas que refutam o silenciamento de vozes críticas do sistema reflitam sobre a situação do nosso país”, disse.

Segundo a ONG Plataforma Eleitoral “Decide”, desde Julho de 2025 até aos dias de hoje, foram registados mais de 20 ataques contra membros dos partidos da oposição.

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Empresário italiano morreu em consequência de problemas de saúde…

Empresário taliano morreu em consequência de complicações de saúde, afirma Ministro do Interior

Maputo, 18 Mai (AIM) – O ministro do Interior moçambicano, Paulo Chachine, afirma que Umberto Sartori, o empresário italiano que foi detido em Abril passado, morreu em consequência de complicações de saúde e de uma greve de fome autoimposta.

Sartori, dono do hotel e restaurante à beira-mar de Maputo, Kaya-Kwanga, foi encontrado morto no chão da prisão de Segurança Superior de Maputo (coloquialmente conhecida como BO). Ele havia sido preso com outros três indivíduos, acusados ​​de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e falsificação.

Segundo o ministro, falando domingo, em Maputo, à margem da cerimónia comemorativa dos 51 anos da PRM, comemorada no dia 17 de Maio, Sartori não comia enquanto enfrentava problemas de saúde.

“É sabido e de conhecimento público que Humberto Sartoni foi preso. Não comia, fazia greve de fome. Quando decidiu comer já estava debilitado e enfrentando problemas de saúde”, disse.

“Se alguém tem problemas graves de saúde, como parecia ter, devemos esperar as consequências. Significa que a sua morte está relacionada com isso”, acrescentou.

Segundo o Serviço Penitenciário Nacional do país (SERNAP), durante os primeiros dias de prisão, Sartori recusou-se a comer “e esta situação de greve de fome já era do conhecimento da família, do advogado e do médico particular, e foi denunciada às autoridades penitenciárias assim que o comportamento foi percebido”.

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Desafios enfrentados pela Polícia exigem modernização…

Maputo, 18 Mai (AIM) – O ministro do Interior, Paulo Chachine, acredita que os actuais desafios enfrentados pela Polícia Moçambicana (PRM) exigem uma formação modernizada e um desempenho mais adequado dos seus agentes.

O ministro, que discursava na Escola de Formação da Polícia de Matalana, província de Maputo, na cerimónia que assinala o 51º aniversário da PRM, disse que os actuais desafios relacionados com o combate à criminalidade, ao terrorismo, à corrupção e à sinistralidade rodoviária no país exigem medidas adequadas.

“A formação dos membros da corporação deve responder à actual situação de segurança. Precisamos de uma reflexão profunda sobre a história da escola e o seu papel na formação policial desde a sua criação. É importante saber de onde viemos, onde estamos, para podermos vislumbrar para onde queremos ir”, disse.

Chachine propôs a elaboração de um projecto para escrever a história da Formação Policial, valorizando o contributo dos fundadores e antigos formadores no desenvolvimento da PRM.

“A nossa expectativa é que, no âmbito das celebrações do jubileu, a Escola desenvolva um projecto de escrita da história da instituição. É necessário avaliar o actual currículo de formação policial para avaliar a sua adequação aos desafios da segurança moderna”, afirmou.

Entre os aspectos apontados para análise estão a evolução da formação policial, a qualidade do desempenho dos egressos, a contribuição dos agentes para a manutenção da ordem pública e a relação entre a escola e as comunidades.

“Estamos empenhados em cumprir fielmente a nossa missão de garantir a segurança interna em Moçambique”, afirmou.

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Moçambique vai comercializar 14,6 milhões de toneladas de…

Maputo, 18 Mai (AIM) – O Presidente moçambicano, Daniel Chapo, anunciou que o país espera comercializar cerca de 14,6 milhões de toneladas de produtos agrícolas na actual campanha agrícola.

Segundo Chapo, que falava no lançamento da Campanha Agrícola 2026, distrito de Ribáuè, província de Nampula, Norte, estes números correspondem a um aumento de 26 por cento face à campanha anterior.

“Deste volume, prevê-se que sejam comercializados cerca de 14,6 milhões de toneladas. Cerca de 60 por cento da produção deverá ser comercializada no período de pico da campanha, enquanto os restantes 40 por cento serão absorvidos pelo mercado até ao final do ano”, disse.

O presidente explicou que entre os principais produtos previstos para comercialização estão o milho, mandioca, feijão, arroz, legumes, gergelim e castanha de caju.

A maior disponibilidade destes produtos concentra-se nas províncias do norte de Nampula e Niassa, e nas províncias centrais de Tete, Zambézia e Manica.

Chapo destacou o potencial produtivo de Nampula, província que considerou estratégica para a dinâmica do comércio agrícola nacional. Precisamos fortalecer o agroprocessamento como forma de agregar valor à produção nacional e impulsionar a industrialização rural”, afirmou.

O governo, disse, incentiva a instalação de pequenas unidades industriais nos distritos para processar localmente produtos agrícolas e criar empregos para jovens e mulheres. “Queremos ver o milho produzido pelo nosso povo gerar farinha produzida em Moçambique. Culturas como a castanha de caju, o gergelim e o amendoim deverão contribuir para o surgimento de novas fábricas e para um maior dinamismo nas economias locais”, afirmou.

Chapo disse ainda que “a agricultura continua a ser uma das principais bases da independência económica do país”, apelando a um maior envolvimento do sector privado nas compras locais, armazenamento, logística e processamento da produção nacional.

O sector agrícola representa aproximadamente 25 a 30 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e emprega mais de 80 por cento da força de trabalho. O sector é dominado por pequenos agricultores familiares que praticam uma agricultura de subsistência e de sequeiro.

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Vozes da Resistência: Mulheres da SADC Debatem Direitos Humanos e Justiça de Género

No âmbito das celebrações do Mês Internacional da Mulher, a Plataforma DECIDE promoveu um webinar regional que reuniu activistas, juristas, investigadoras e defensoras dos direitos humanos de vários países da África Austral para discutir os principais desafios enfrentados pelas mulheres na região da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral.

O encontro virtual juntou participantes de Moçambique, Zimbabwe, África do Sul e Essuatíni numa reflexão profunda sobre conflitos armados, violência baseada no género, fragilidade institucional, acesso à justiça e o papel da sociedade civil na promoção da igualdade.

Conflitos armados agravam vulnerabilidade feminina

A activista zimbabweana Michelle V. abriu o debate alertando que os conflitos armados e a instabilidade política continuam a afectar desproporcionalmente mulheres e raparigas em vários países da região.

Segundo Michelle V., a violência em contextos de conflito vai além da dimensão militar, transformando-se numa crise estrutural de direitos humanos.

“Em tempos de conflito, a segurança das mulheres é posta em causa; os sistemas de saúde, de subsistência e de justiça, que as deveriam proteger, desmoronam-se.”

A defensora dos direitos humanos denunciou aquilo que classificou como “armamentização da instabilidade”, fenómeno que normaliza abusos, violência sexual e exclusão feminina durante períodos de crise política ou militar.

Apesar disso, Michelle V. destacou o papel das mulheres como agentes activas de resistência, mediação e construção da paz, sublinhando estudos que indicam que processos de paz com participação feminina têm maiores probabilidades de sucesso e sustentabilidade.

Moçambique enfrenta distância entre leis e realidade

Representando Moçambique, a jurista e activista Ferosa Chaúque apresentou um retrato preocupante sobre os desafios enfrentados pelas mulheres moçambicanas.

Embora reconheça avanços legislativos importantes — como a Constituição da República, a Lei da Família e a Lei de Prevenção e Combate às Uniões Prematuras —, a advogada alertou que a implementação efectiva das leis continua frágil.

Segundo Ferosa Chaúque, factores como pobreza extrema, normas patriarcais e desigualdade estrutural mantêm milhares de mulheres e raparigas em situação de vulnerabilidade.

Dados apresentados durante o webinar indicam que cerca de 48% das raparigas moçambicanas entram em uniões antes dos 18 anos, enquanto grande parte da população continua abaixo da linha da pobreza.

“Existe uma necessidade clara de reforçar a implementação das leis existentes e garantir uma maior inclusão das mulheres nos processos de governação.”

A activista alertou ainda para o impacto das mudanças climáticas, deslocamentos forçados e crises humanitárias, que aumentam os riscos de exploração, violência e abandono escolar entre mulheres e crianças.

Suspensão do Tribunal da SADC preocupa activistas

A investigadora de género Nomsa Ntshingila centrou a sua intervenção nos mecanismos regionais de protecção dos direitos humanos.

Segundo a especialista, o Protocolo da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral sobre Género e Desenvolvimento representa um avanço importante, mas continua enfraquecido pela falta de vontade política e pela implementação limitada nos Estados-membros.

Um dos principais pontos levantados foi a suspensão do Tribunal da SADC, considerada por activistas como um retrocesso significativo na responsabilização regional.

“Sem um tribunal regional, é muito difícil responsabilizar os estados pelas violações de direitos humanos em curso nos seus países.”

Nomsa Ntshingila destacou que, sem mecanismos regionais fortes, mulheres vítimas de violência política, disputas de terra, perseguição ou discriminação ficam dependentes apenas dos sistemas judiciais nacionais, muitas vezes frágeis ou politicamente condicionados.

Sociedade civil critica “femocracia” e representação simbólica

A directora executiva da organização sul-africana We Are The People, Lindiwe Mtambo, trouxe uma análise crítica sobre os modelos de empoderamento feminino adoptados na região.

A activista questionou o uso recorrente do conceito de “resiliência feminina”, argumentando que, muitas vezes, essa narrativa serve para normalizar o sofrimento e esconder a incapacidade dos Estados em garantir protecção efectiva.

Lindiwe Mtambo criticou igualmente o fenómeno da “femocracia”, caracterizado pela promoção simbólica de mulheres em estruturas políticas sem mudanças reais nas condições de vida da maioria feminina.

Apesar de países como a África do Sul apresentarem elevada representação parlamentar feminina, a activista considera que isso nem sempre se traduz em justiça social ou igualdade prática.

“É importante que as mulheres sejam vistas como especialistas nos seus próprios problemas.”

Segundo Lindiwe Mtambo, políticas públicas devem ser construídas a partir das experiências reais das mulheres nas comunidades e não apenas através de indicadores estatísticos de representação.

Inclusão masculina surge como prioridade

Durante o encerramento do webinar, moderado por Nura Edina, as participantes defenderam novas abordagens para fortalecer o acesso à justiça e reduzir a violência baseada no género.

Uma das recomendações centrais foi a inclusão de homens e rapazes nos debates sobre igualdade de género.

Ferosa Chaúque argumentou que o envolvimento masculino é essencial para mudanças sociais duradouras:

“Precisamos de incluir homens e adolescentes, pois eles são os homens de amanhã, potenciais legisladores ou potenciais agressores.”

As oradoras defenderam ainda a criação de tribunais especializados em violência baseada no género e protecção da criança, garantindo tratamento prioritário e adequado para estes crimes.

Um apelo regional por justiça efectiva

O webinar terminou com um apelo conjunto para que os governos da região austral coloquem a segurança, dignidade e participação das mulheres no centro das políticas públicas.

As participantes alertaram que, sem instituições fortes, justiça acessível e combate efectivo às desigualdades estruturais, a região continuará vulnerável a ciclos de violência, exclusão e impunidade.

Para as activistas presentes, a luta pelos direitos das mulheres na África Austral não deve limitar-se a discursos simbólicos, mas traduzir-se em mudanças concretas na vida das comunidades.

O Labirinto do Aborto em Moçambique: Entre a Lei e o Mercado da Morte

Uma investigação jornalística do Centro de Integridade Pública (CIP) expõe um sistema marcado por burocracia, corrupção e medo, onde milhares de mulheres moçambicanas continuam a arriscar a vida mesmo depois da legalização do aborto seguro em determinadas circunstâncias.

Apesar de a legislação moçambicana permitir a interrupção voluntária da gravidez até às 12 semanas, a realidade encontrada nos hospitais públicos revela um cenário completamente diferente. O acesso ao serviço legal continua condicionado por atrasos administrativos, cobranças ilícitas, falta de informação e práticas clandestinas dentro das próprias unidades sanitárias.

Segundo um estudo nacional publicado em 2025, o aborto inseguro é responsável por mais de uma em cada nove mortes maternas em Moçambique. As estimativas apontam para cerca de 277 mil abortos realizados anualmente no país, o equivalente a quase 40 abortos por cada mil mulheres em idade reprodutiva.

Burocracia e corrupção empurram mulheres para o clandestino

A história de Joana Balate, de 24 anos, mostra como o caminho legal pode transformar-se rapidamente num labirinto perigoso.

Após engravidar de um homem casado e recear a reacção da família, Joana procurou o Hospital Primeiro de Maio em busca de um aborto seguro e legal. Em vez de assistência rápida, encontrou um processo burocrático complexo, marcado por exigências administrativas, cartas de motivação e longas esperas por pareceres médicos.

Enquanto o tempo corria contra o limite legal de 12 semanas, surgiu uma alternativa dentro do próprio hospital: uma enfermeira ofereceu-se para resolver o problema clandestinamente por três mil meticais.

“O que estavam a dizer é que o processo legal também tem um custo”, relatou Joana ao CIP.

Sem alternativas, a jovem aceitou tomar comprimidos em casa. As dores intensas, hemorragias e complicações posteriores resultaram numa trompa rompida, reduzindo drasticamente as suas hipóteses futuras de engravidar.

Investigação do CIP revela tabela informal de abortos

A investigação do Centro de Integridade Pública documentou práticas ilegais dentro de unidades sanitárias públicas.

Ao simularem o caso de uma jovem de 18 anos grávida de quatro meses, investigadores ouviram profissionais de saúde explicarem abertamente os preços cobrados para abortos clandestinos.

Segundo os relatos recolhidos, o cálculo obedecia a uma lógica simples: cerca de 1.500 meticais por cada mês de gestação.

A investigação revela ainda que alguns profissionais se mostraram disponíveis para realizar procedimentos avançados sem exames médicos, ecografias ou avaliações clínicas adequadas, expondo as pacientes a riscos graves de infecção, hemorragias e morte.

Mulheres com deficiência enfrentam exclusão ainda maior

O relatório aponta que mulheres com deficiência encontram obstáculos ainda mais severos para aceder aos serviços de saúde sexual e reprodutiva.

A ausência de intérpretes de língua de sinais, materiais acessíveis e informação adaptada dificulta completamente o acesso ao aborto seguro. Em zonas rurais, a distância até às unidades sanitárias agrava ainda mais o problema.

Organizações da sociedade civil alertam que muitas mulheres acabam dependentes de intermediários ou práticas clandestinas devido à exclusão estrutural dos serviços públicos.

Casos de sobrevivência expõem falhas do sistema

A investigação apresenta também os testemunhos de Maria Cosa e Carla, duas mulheres que sobreviveram a procedimentos clandestinos marcados por negligência e exploração financeira.

Maria Cosa tentou inicialmente recorrer ao sistema legal, mas acabou empurrada para uma solução clandestina devido à demora institucional. Após pagar três mil meticais por um procedimento inseguro, sofreu uma hemorragia grave.

“Desmaiei na casa de banho porque não parava de perder sangue”, contou.

Já Carla relata ter sido vítima de extorsão depois de comprimidos vendidos por uma enfermeira do Centro de Saúde da Quinta não terem provocado a interrupção completa da gravidez. A mesma profissional exigiu mais cinco mil meticais para realizar uma “raspagem” improvisada.

“Ela estava a cobrar aquele valor porque viu que eu não ia ter outra alternativa”, desabafou.

Autoridades reconhecem desafios no sistema de saúde

O Ministério da Saúde tem defendido publicamente que os serviços de aborto previstos por lei devem ser gratuitos nas unidades sanitárias do Estado.

A Autoridade Reguladora de Medicamentos (ARM) afirma igualmente que medicamentos utilizados para interrupção voluntária da gravidez são controlados e só devem circular legalmente através do sistema autorizado.

No entanto, organizações da sociedade civil denunciam falhas persistentes de fiscalização. O Observatório Cidadão para Saúde refere que quatro em cada dez utentes manifestam insatisfação com os serviços de saúde devido a práticas de corrupção, cobranças ilícitas e mau atendimento.

Estigma social continua a afastar mulheres

Além dos obstáculos institucionais, especialistas apontam o peso do estigma social como um dos principais factores que empurram mulheres para circuitos clandestinos.

Juristas e activistas dos direitos humanos defendem que muitos profissionais de saúde actuam como “detractores de consciência”, desencorajando pacientes através de atitudes moralistas ou recusas indirectas de atendimento.

A falta de informação sobre os direitos reprodutivos também continua elevada, sobretudo entre adolescentes e mulheres das zonas periféricas e rurais.

Entre a lei e a realidade

Embora Moçambique tenha avançado legalmente ao permitir o aborto em determinadas circunstâncias, a implementação prática continua profundamente desigual.

A investigação jornalística do Centro de Integridade Pública revela que, para milhares de mulheres, o direito ao aborto seguro existe apenas no papel.

Enquanto persistirem corrupção, burocracia excessiva, falta de fiscalização e estigma social, muitas continuarão obrigadas a escolher entre o silêncio, o medo e procedimentos clandestinos que colocam em risco as suas próprias vidas.

Crise de Combustíveis em Moçambique: Entre o sufoco dos transportadores e a escassez de divisas

A persistente escassez de combustíveis em Moçambique continua a agravar a pressão sobre a economia nacional, afectando particularmente o sector dos transportes, o custo de vida e a actividade produtiva. Apesar dos recentes reajustes nos preços dos combustíveis anunciados pelo Governo, automobilistas e transportadores relatam dificuldades contínuas para abastecer, numa crise que já ameaça o funcionamento regular de vários serviços essenciais.

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