Economia – O País – A verdade como notícia


O ministro da Planificação e Desenvolvimento diz que Moçambique não pode repetir o erro de explorar os recursos sem beneficiar as comunidades locais. Salim Valá afirma, por isso, que é preciso instituir que os grandes projectos integrem jovens, mulheres e empresas nacionais na sua cadeia de valor.

Foi diante de uma plateia composta por empresários, políticos e governantes que Salim Valá apresentou a exploração de recursos naturais de que o país dispõe como uma das saídas para a recuperação económica, contudo, ao mesmo tempo, chamou atenção para a necessidade de cautela nas expectativas criadas, uma vez que se trata de “investimentos de grande impacto, capazes de transformar a estrutura económica do país ao longo das próximas décadasâ€.

“Queremos deixar aqui a mensagem de que o gás natural não é um fim em si mesmo: é um mecanismo para financiar a diversificação económica, modernizar a agricultura, expandir a industrialização, fortalecer o capital humano, implantar infra-estruturas modernas, potenciar as PME e criar empregos. Os países que prosperaram com recursos naturais foram aqueles que transformaram receitas extraordinárias em investimentos estratégicos. É essa a rota que Moçambique pretende seguir.â€

É que, no seu entender, “Moçambique já não aceita ser um país rico em recursos, porém pobre em benefíciosâ€. Para ele, este é um erro histórico que alguns países cometeram, mas que o nosso não pode cair nele.

“Por isso, estamos a avançar com políticas de conteúdo local, com mecanismos de financiamento produtivo, com fundos territoriais, com reforço do capital humano e com incentivos claros, para que os grandes projectos integrem jovens, mulheres e empresas moçambicanas nas suas cadeias de valor. Não queremos apenas extrair riqueza; queremos transformá-la, multiplicá-la e distribuí-la, contornando, assim, a doença holandesa e a maldição dos recursos naturaisâ€, afirmou.

Salim Valá apresentava, na manhã desta quinta-feira (11), em Maputo, os contornos da implementação do Plano de Recuperação e Crescimento Económico 2025-2029, no âmbito das celebrações das três décadas (30 anos) do Millennium Bim.

Igual ao gás está o investimento em infra-estruturas de transporte e logística, como oportunidades imprescindíveis para o país tirar benefício da localização estratégica, com rios e extensas áreas marítimas, com a visão governativa de se tornar “hub logístico e comercial de referência na Ãfrica Austral, servindo os mercados do hinterland e integrando Moçambique nas cadeias de valor regionais e globaisâ€.

Para o efeito, a modernização de infra-estruturas é crucial.

“Estamos a investir de forma estratégica em corredores de desenvolvimento, modernização portuária, infra-estruturas ferroviárias e rodoviárias, incluindo a EN1, e a conectividade digital, criando condições para que o país se torne um ponto de convergência para o comércio, indústria e inovação tecnológicaâ€, defendeu o governante.

PIB poderá cair em 1,6 pontos percentuais em 2026

O anúncio da revisão em baixa das perspectivas de crescimento económico para o ano 2026, dos anteriores 3,2% para  2,8%, foi feito durante o briefing do Conselho de Ministros desta semana.

Nesta quinta-feira, o ministro da Planificação e Desenvolvimento mostrou-se esperançoso com a inversão dos gráficos, como resultado da implementação do plano de recuperação e crescimento económico 2025-2029 (PRECE), orçado em mais de 2,75 mil milhões de dólares.

Valá diz que o instrumento está a restaurar a confiança dos investidores e da população, e, consequentemente, gera a possibilidade de crescimento médio do Produto Interno Bruto.

“Estimamos um crescimento médio do Produto Interno Bruto de 5%, durante o período de implementação do PRECE, impulsionado pela retoma dos investimentos de capital intensivo nos sectores de gás natural, agro-negócio, mineração, energia, turismo e infra-estruturas, aumento da produção interna e exportações dos grandes projectos, menor pressão inflacionária decorrente da estabilidade da taxa de câmbio do metical face ao dólar americano, descida das taxas de juro resultante de uma política monetária expansionista, implementação de reformas no quadro fiscal e regulatório para a melhoria do ambiente de negócios.â€

Ao mesmo tempo que o país se apresenta confiante na melhoria da economia, há desafios cuja influência é quase inevitável. Para além dos naturais, existem os de procedimento, como é o caso da baixa produtividade, sobretudo no sector agrícola.

Valá fez questão de enumerar os desafios ligados a infra-estruturas ainda insuficientes em matéria de estradas, energia rural, logística e armazenamento e oscilações dos preços internacionais de combustíveis, fertilizantes e alimentos.

“Além de a economia enfrentar desafios relacionados com o endividamento, pressões fiscais e reduzida oferta de moeda externa, há ainda uma vulnerabilidade estrutural que não aparece apenas nas contas nacionais, mas em cada comunidade: a combinação de baixa produtividade, elevado nível de informalidade e desigualdades territoriaisâ€, declarou, chamando atenção para a necessidade de ter em conta a realidade social, quando se aborda o contexto económico actual, para não se ocuparem apenas nos indicadores macroeconómicos.â€

O ministro afirma que o Executivo está ciente das dificuldades, por isso desenvolveu instrumentos como Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025-2044, Programa Quinquenal do Governo, 2025-2029, Cenário Fiscal de Médio Prazo 2026-2028, Plano Económico e Orçamento do Estado, Plano de Recuperação e Crescimento Económico 2025-2029 e a estratégia nacional de financiamento climático, para, segundo o governante, fazer face aos desafios económicos e alcançar resultados esperados, com base em políticas claras, mecanismos de análise e previsibilidade necessários.

Governo e bancos colocam cidadãos numa “maratona burocráticaâ€

O ministro das Comunicações e Transformação Digital afirma que a não digitalização das instituições que prestam serviços públicos dificulta a experiência do cidadão no dia-a-dia.

Américo Muchanga fala de um cidadão que, sempre que busca por algum serviço, primeiro deve deslocar-se ao local, fisicamente. Chegado ao local, deve preencher documentos e ainda assinar, por forma a ser reconhecido.

E tudo fica mais difícil se tiver de concluir o processo noutra instituição, cuja comunicação é deficiente. Aí o cidadão “queima†o dia neste processo. 

O ministro considera o processo uma “maratona burocráticaâ€, que atrasa processos e desvaloriza as instituições. É daí que o Governo elegeu cinco plataformas nacionais consideradas importantes, para alterar esta experiência do cliente ou cidadão.

“A primeira plataforma de que nós precisamos é a plataforma de assinatura digital. Temos de trabalhar em conjunto, sobretudo os bancos vão tirar vantagem desta plataforma da assinatura digital. Ela tem de ser segura, inclusiva e poder funcionar com vários instrumentos de acesso, desde o telefone móvel, computador ou qualquer plataforma digital; precisamos de estabelecer uma plataforma de interoperabilidade que seja um backbone de identidade que permita, a partir dos dados do cidadão, para podermos identificar o cidadão uma única vez. Portanto, se eu me apresento ao Estado e dou a minha informação sobre a minha identidade, o Estado já conhece a informação, onde quer que eu vá, basta lhe dar um identificador para ele poder ter acesso a todos os meus dados. A terceira plataforma é a plataforma de identidade digital, que é o instrumento de que o cliente ou cidadão precisa para poder-se autenticar quando ele está a usar uma plataforma digital. Precisamos de pagamentos digitais, portanto sistemas de pagamentos digitais. Aqui, a banca tem um papel preponderante. Finalmente, para retirar aquilo que chamei de maratona do cidadão, maratona burocrática, nós precisamos de ter um portal cidadão, que é o único ponto para onde o cidadão se deve dirigir quando pretende ter serviço do Estadoâ€, disse.

Muchanga desafiou ainda a Banca Nacional a engajar-se na criação de Banca Digital, “porque, para servir 24 milhões de pessoas em todo o sítio onde estão, eles não podem funcionar da maneira como a banca tradicional funcionaâ€.

%%footer%%

Desporto – O País – A verdade como notícia


A sexta jornada da fase da liga da Liga dos Campeões europeus disputa-se esta semana com jogos a terça e quarta-feiras. O Sporting, clube onde milita Geny Catamo, desloca-se a Munique para defrontar o Bayern, no mesmo dia em que Inter e Liverpool cruzam-se a procura de um pontos para confirmar lugares de qualificação.

A caminhada para a fase do mata-mata continua indefinida, com as equipes à procura de somar pontos suficientes para garantir posições que assegurem a qualificação. São nove jogos em disputa esta terça-feira, com duelos que vão mexer com a classificação no final dos 90 minutos.

Bayern München – Sporting CP (17:45)

O Bayern não perdeu nenhum dos quatro confrontos europeus com o Sporting, somando três vitórias e um empate, tendo marcado 13 golos e sofrido apenas um. O duelo mais recente entre as duas equipas aconteceu nos oitavos-de-final da Champions League de 2008/09, quando o Bayern venceu por 12-1 no total, após vitórias por 5-0 em Lisboa e 7-1 em Munique.

O campeão da Alemanha perdeu apenas duas das 31 partidas disputadas contra adversários portugueses nas competições da UEFA. Em casa, nunca perdeu em 15 jogos.

Harry Kane marcou 16 golos nos 15 jogos em casa pelo Bayern na Champions League.

O Sporting venceu apenas um dos seus 17 jogos europeus fora de casa contra adversários alemães. A sua única vitória aconteceu em Setembro de 2022, quando derrotou o Eintracht Frankfurt por 3-0 na fase de grupos da Champions League.

A equipa portuguesa marcou nos últimos 21 jogos da fase de grupos/fase de liga das competições de clubes da UEFA e abriu o marcador em quatro dos seus cinco jogos da Champions League desta época.

Na Jornada 5, Geovany Quenda (18 anos e 210 dias) tornou-se no jogador português mais jovem a fazer 15 jogos na Champions League (a partir da fase de grupos/fase de liga), batendo o recorde anterior detido por Rúben Neves (19 anos e 269 dias).

Atalanta – Chelsea

A Atalanta perdeu apenas um dos seus últimos nove jogos em casa na fase de grupos/fase de liga das competições de clubes da UEFA, somando quatro vitórias e outros tantos empates e dois dos seus últimos 19 jogos no total, onde fez 11 vitórias e seis empates.

Ademola Lookman, da Atalanta, marcou em cinco dos seus últimos oito jogos na Champions League.

O Chelsea venceu os seus últimos três jogos das competições de clubes da UEFA contra clubes italianos sem sofrer golos, tendo registado 13 vitórias nos derradeiros 15 jogos da fase de grupos/fase de liga.

Com 18 anos e 215 dias, Estêvão tornou-se na Jornada 5, contra o Barcelona, no segundo jogador mais jovem a marcar em três jogos seguidos da Champions League, apenas atrás de Kylian Mbappé (18 anos e 113 dias).

Barcelona – Frankfurt

O Barcelona venceu 16 dos últimos 20 jogos em casa contra equipas alemãs nas competições da UEFA e sofreu quatro derrotas.

O clube catalão venceu apenas duas das últimas oito partidas da Champions League, já que somou, também, dois empates e quatro derrotas.

Robert Lewandowski marcou 16 golos em 24 jogos contra o Frankfurt em todas as competições durante a sua passagem por Dortmund e Bayern.

O Frankfurt venceu quatro dos seus seis jogos fora de casa na Europa contra adversários espanhóis. A única derrota aconteceu na Jornada 2 da Champions League desta época, por 5-1, contra o Atlético de Madrid.

A equipa alemã tem apenas uma vitória nos últimos sete jogos das competições de clubes da UEFA e não ganha há quatro jogos.

Inter – Liverpool

Estas equipas enfrentaram-se seis vezes nas competições de clubes da UEFA: o Liverpool venceu quatro vezes e o Inter duas. A equipa inglesa triunfou nas duas últimas visitas a Itália, mais recentemente por 2-0 na primeira mão dos oitavos-de-final da Champions League de 2021/22.

O Inter venceu dez dos seus últimos 11 jogos em casa na fase de grupos/fase de liga da Champions League, e empatou um, tendo sofrido somente dois golos nessa série.

Lautaro Martínez marcou nos cinco jogos em casa pelo Inter na Champions League, acumulando um total de oito golos.

Nenhuma das últimas 31 partidas do Liverpool na fase de grupos/fase de liga terminou empatada. A última igualdade aconteceu a 9 de Dezembro de 2020, contra o Midtjylland, na Champions League (1-1).

Kairat Almaty – Olympiacos

O Kairat Almaty não venceu os últimos oito jogos nas competições da UEFA, somando três empates e cinco derrotas.

A equipa do Cazaquistão também não vence há 11 jogos na fase de grupos/fase de liga das competições de clubes da UEFA, tendo alcançado três empates e oito derrotas.

O Olympiacos venceu apenas duas dos últimos 25 jogos da fase de grupos/fase de liga da Champions League. O clube grego não vence há dez partidas, desde a vitória por 1-0 em casa contra o Marselha, a 21 de Outubro de 2020.

A equipa grega perdeu os últimos 12 jogos fora de casa na fase de grupos/fase de liga da Champions League, desde a vitória por 1-0 sobre o GNK Dinamo, a 20 de Outubro de 2015.

Monaco – Galatasaray

Estas equipas defrontaram-se seis vezes nas competições de clubes da UEFA: o Monaco venceu três vezes e o Galatasaray duas. Os confrontos mais recentes ocorreram na fase de grupos da Champions League de 2000/01 e ambas as equipas venceram os seus jogos em casa: o Galatasaray por 3-2 e o Mónaco por 4-2.

O Monaco venceu quatro dos seus últimos cinco jogos europeus em casa contra adversários turcos, tendo perdido apenas uma vez. Em cada uma dessas vitórias, marcou pelo menos três golos.

O Mónaco está invicto nos últimos quatro jogos da Champions League e perdeu apenas quatro dos últimos 16 jogos em casa nas competições da UEFA.

O Galatasaray venceu apenas duas das suas 11 partidas fora de casa na Europa contra adversários franceses, somando dois empates e sofrendo sete derrotas. O clube turco não venceu nas últimas cinco partidas e a sua vitória mais recente foi contra o Nantes, por 1-0, na fase de grupos da Champions League de 2001.

Victor Osimhen marca há oito jogos seguidos na UEFA, contando com a temporada passada, período em que assinou 12 golos.

Wilfried Singo disputou 60 partidas em todas as competições ao longo de duas temporadas no Monaco antes de se transferir para o Galatasaray no Verão passado.

PSV Eindhoven – Atlético de Madrid

O PSV marcou em 17 dos seus últimos 18 jogos da fase de grupos/fase de liga da Champions League e fez 17 golos nos últimos cinco jogos em casa na fase de liga da Champions League..

O Atlético não perdeu os últimos seis jogos entre estas equipas nas competições da UEFA, onde alcançou quatro vitórias e dois empates, tendo sofrido apenas um golo. O último confronto entre as duas equipas aconteceu na fase de grupos da Champions League de 2016/17, quando os espanhóis venceram por 1-0 em Eindhoven e por 2-0 em Madrid. O Atlético está igualmente invicto nos últimos oito jogos contra equipas neerlandesas nas competições da UEFA.

O Atlético perdeu os seus últimos três jogos fora de casa na Champions League.

Julián Alvarez marcou nove golos nas suas últimas dez partidas na Champions League.

Union Saint-Gilloise – Marseille

O Union SG conseguiu apenas duas vitórias nos últimos dez jogos em casa nas competições de clubes da UEFA, para além de três empates e cinco derrotas, tendo perdido os três mais recentes sem marcar qualquer golo.

O Union SG terminou uma série de nove jogos a sofrer golos nas competições de clubes da UEFA quando bateu o Galatasaray, por 1-0, na Jornada 5.

O Marselha não venceu nos últimos sete jogos fora de casa na Europa, tendo somado um empate e seis derrotas, mas também perdeu os cinco mais recentes; foi também derrotado em 12 dos últimos 13 jogos fora de casa na Champions League, somando uma vitória.

A próxima vitória do Marselha será a sua 50ª na história da Taça dos Campeões/Champions League.

O segundo golo de Pierre-Emerick Aubameyang contra o Newcastle, na Jornada 5, foi o seu 20º na Champions League. Com 36 anos e 160 dias, tornou-se no jogador mais velho a atingir esse marco, ultrapassando Olivier Giroud (36 anos e 25 dias).

Tottenham – Slavia Praha

O Tottenham não perdeu nos quatro jogos anteriores na UEFA contra o Slavia Praha e nos últimos sete jogos europeus contra adversários checos, tendo a única derrota diante de um adversário checo sido contra o Dukla Praha, por 1-0, na primeira mão dos quartos-de-final da Taça dos Campeões, em Fevereiro de 1962.

Os Spurs não perdem há 22 jogos em casa nas competições da UEFA, somando 18 vitórias e quatro empates e venceu os dois últimos nessa condição esta época na Champions League sem sofrer golos.

O próximo golo do Tottenham será o 100º do clube na Champions League (a partir da fase de grupos/fase de liga).

A equipa checa não marca golos há quatro jogos na Champions League .

O guarda-redes Antonín Kinský fez 30 jogos pelo Slavia Praha antes de se transferir para o Tottenham em Janeiro.

Internacional – O País – A verdade como notícia


A UNICEF divulgou que mais de 200 milhões de crianças vão precisar de ajuda humanitária no próximo ano, em 133 territórios. A organização pede 6 580 milhões de euros para apoiar 73 milhões de crianças.

Segundo o Relatório de Acção Humanitária para a Infância, apresentado em Madrid esta quarta-feira, o crescimento das necessidades humanitárias na infância é explicado pelo organismo com o agravamento das tensões e conflitos mundiais, bem como das situações de fome.

Os cortes no financiamento a nível mundial e o colapso dos serviços básicos também contribuem para a nova estimativa.

“As necessidades aumentaram, não apenas em número de milhões de crianças, mas também em gravidadeâ€, acrescentou a coordenadora global de emergências da UNICEF, Inés Lezama, citada por Lusa.

Apesar do número estimado de crianças em risco, o pedido de 6 580 milhões de euros para 2026 representa um corte de cerca de 22% face ao ano anterior.

Em 2025, a UNICEF reduziu as intervenções do programa de nutrição em 20 países prioritários devido ao défice de financiamento de 72%.

Na educação, o défice de 640 milhões de euros colocou em risco o acesso ao ensino de milhões de crianças: “Há menos fundos e, por isso, temos de tomar decisões muito difíceis no dia a diaâ€, explicou Lezama.

Em conferência de imprensa, o director-executivo da UNICEF Espanha, José María Vera, apelou a que o sector privado e as administrações públicas mantenham o apoio prestado à organização, numa fase em que as necessidades crescem em sentido inverso aos recursos, que são cada vez menores.

O alerta surge numa altura em que os cortes de financiamento previstos por parte de governos doadores limitam a capacidade de resposta da UNICEF.

“Sem financiamento contínuo, as intervenções vitais de nutrição, água, saneamento e higiene para proteção de milhares de crianças serão interrompidasâ€, lê-se no comunicado da UNICEF citado pela agência Lusa.

O valor solicitado de 6 580 milhões de euros será distribuído entre as diferentes necessidades em cada região, nomeadamente no acesso à água, saneamento, higiene e nutrição (40%), educação (16%), saúde (14%) e proteção da infância (12%).

As maiores necessidades de financiamento para o próximo ano concentram-se no Sudão, Afeganistão e Palestina, devido ao risco de fome em Gaza e em Darfur e Cordofão (Sudão).

Entre as mudanças no apoio prestado pela UNICEF em 2026 estão a necessidade priorizar intervenções de maior impacto, reforçar alianças com governos e investir na preparação das ações de ajuda humanitária.

Sociedade – O País – A verdade como notícia


Era para ser apenas mais uma história de nascimento, daquelas que começam com choro, esperança e promessas de futuro. Mas, para Márcia Langa, o dia em que o filho Edmilson nasceu marcou o início de uma travessia silenciosa e desigual contra uma doença rara, pouco conhecida e sem cura. Entre hospitais, diagnósticos errados, preconceito e a luta diária para manter o filho vivo e integrado na sociedade, esta é a história que revela o lado invisível das doenças raras em Moçambique, onde a ciência avança devagar, o tratamento custa caro e a esperança resiste sobretudo à força das famílias.

A 6 de Outubro de 2009, Márcia Langa entrou na maternidade do Hospital Provincial de Inhambane com o coração cheio de expectativa. Ia nascer o seu segundo filho e, como acontece com quase todas as mães, aquele deveria ser um dia de celebração, de lágrimas felizes e de promessas silenciosas feitas ao recém-nascido. Nada, absolutamente nada, fazia prever que aquele momento marcaria o início de uma travessia longa, dolorosa e ainda hoje inacabada.

Pouco depois do parto, a alegria deu lugar à inquietação. Algo no bebé não parecia normal, mas ninguém sabia explicar o quê. Instalaram-se dúvidas, perguntas sem resposta e um silêncio desconfortável, mesmo entre profissionais de saúde habituados a lidar com situações complexas. 

Márcia tentava decifrar cada sinal do filho, enquanto os médicos procuravam entender o que estava diante deles. Dois dias depois, recebeu alta e regressou a casa com o bebé nos braços, mas sem a serenidade que costuma acompanhar nos primeiros dias de maternidade.

Uma semana depois, o susto voltou com força. O recém-nascido foi diagnosticado com malária, uma condição grave para qualquer pessoa, ainda mais para uma criança tão pequena. Márcia regressou ao hospital e iniciou-se um ciclo de consultas, exames, tratamentos e internamentos. As noites tornaram-se curtas, os dias longos e a sensação persistente era a de que, apesar dos diagnósticos e medicamentos, havia algo mais profundo que permanecia inexplicado.

Na busca por respostas, Márcia percorreu unidades sanitárias, acumulou fichas clínicas e ouviu repetidas vezes a mesma palavra: dermatite. O filho aquecia constantemente, a pele apresentava alterações, os dentes não nasciam no tempo esperado. Nada se encaixava. Ainda assim, as respostas continuavam vagas. Determinada a não desistir, levou a criança ao Hospital Provincial de Xai-Xai, acreditando que novos olhares pudessem finalmente esclarecer o mistério. Mas também ali ninguém conseguiu identificar com precisão o que afectava o menino. As suspeitas apontavam para algo raro, estranho, pouco comum, mas sem diagnóstico conclusivo.

O tempo passou e a incerteza acumulou-se. Foi apenas em 2017, quando o menino já tinha oito anos e Márcia carregava quase uma década de angústia, que surgiu uma possibilidade concreta de esclarecimento. Com ajuda de amigos, conseguiu uma consulta no Hospital Central de Maputo. A esperança, porém, rapidamente se transformou em pesadelo. 

Após horas de observação, veio um diagnóstico devastador: progéria, uma síndrome genética associada ao envelhecimento precoce e a uma expectativa de vida muito curta. Para Márcia, foi como receber uma sentença antecipada de morte do filho. Cada dia passou a ser vivido como se fosse o último, numa contagem regressiva silenciosa e cruel.

Durante dois anos, a família viveu sob o peso dessa previsão. Márcia acordava todos os dias com medo, rezando para que algo mudasse, para que houvesse um erro, uma alternativa, uma nova leitura daquele caso. Em 2019, a notícia que parecia impossível finalmente chegou. Um médico, após novos estudos, explicou que Edmilson não tinha progéria. O diagnóstico correcto era displasia ectodérmica, uma doença genética rara. A revelação trouxe alívio, mas também abriu uma nova fase de desafios.

A displasia ectodérmica explica sintomas que acompanharam Edmilson desde o nascimento: ausência de glândulas sudoríparas, produção reduzida de lágrimas, poucos dentes, pele extremamente seca e dificuldade em regular a temperatura corporal. Edmilson não transpira, sente calor constante, sofre fissuras dolorosas na pele e corre risco permanente de hipertermia. 

O diagnóstico deu nome ao problema, mas não trouxe cura. Apenas orientações rigorosas para lidar com os sintomas: evitar o sol, manter o corpo fresco, hidratar constantemente a pele, cuidados alimentares específicos e acompanhamento médico contínuo.

Na prática, a rotina da família transformou-se num exercício permanente de vigilância. Edmilson precisa molhar o corpo várias vezes ao dia, beber muita água, usar chapéu e roupas adequadas. Na escola, enfrenta constrangimentos constantes. Para se proteger do calor, molha a roupa por baixo da camisa, sai frequentemente da sala para lavar o rosto e beber água. Apesar de autorizações formais, nem sempre encontra compreensão. O medo do julgamento alheio fez dele um adolescente retraído, desconfiado e, muitas vezes, solitário.

O “bullying†marcou profundamente a sua trajectória escolar. Em determinado momento, Edmilson quis desistir dos estudos. Foi preciso apoio psicológico para o convencer a continuar. Hoje, apesar das dificuldades, mantém-se firme na escola, determinado a não deixar que a doença ou o preconceito lhe roubem o futuro. Encontra conforto em poucos amigos que o aceitam como é e compreendem que a sua condição não o define.

ENFRENTAR CUSTOS

Do ponto de vista clínico, Edmilson realiza, em média, cinco consultas médicas por ano, incluindo dermatologia, oftalmologia, urologia, psicologia e genética. Muitas delas, porém, não acontecem com a regularidade necessária. A razão é simples e dura: falta de dinheiro. A maioria das especialidades de que precisa está concentrada em Maputo, a centenas de quilómetros de Inhambane. 

As viagens, estadias e consultas representam um custo insustentável para a família. Há exames adiados, avaliações que não acontecem e tratamentos interrompidos, não por falta de indicação médica, mas por limitações financeiras.

Hoje, com 17 anos, Edmilson fala na primeira pessoa sobre o que vive. Descreve a sensação de ardor na pele, as bolhas que surgem após exposição ao sol, a dor nos lábios e nos olhos. Recorda episódios em que professores lhe exigiram retirar o chapéu, ignorando relatórios médicos. Ainda assim, insiste em seguir em frente, com uma maturidade forjada pela adversidade.

Quem acompanha o caso é o médico geneticista Luís Madeira, do Hospital Central de Maputo. Segundo o especialista, a displasia ectodérmica faz parte de um universo muito mais amplo de doenças raras. Actualmente, a literatura científica reconhece mais de nove mil doenças raras no mundo, número que continua a crescer à medida que melhoram as capacidades de diagnóstico. No caso específico das displasias ectodérmicas, existem cerca de 200 tipos diferentes, a maioria de origem genética e hereditária, mas não transmissível por contacto.

Luís Madeira explica que, em Moçambique, estão oficialmente identificados apenas cinco pacientes com displasia ectodérmica, mas alerta que o número real pode ser maior. A dificuldade em reconhecer os sinais, aliada às limitações diagnósticas, faz com que muitos casos permaneçam ocultos. Apesar de rara, a doença não é tão incomum quanto se imagina. Em contextos hospitalares com grande volume de partos, seria expectável identificar novos casos ao longo dos anos.

A displasia ectodérmica é grave e não tem cura. O tratamento é exclusivamente sintomático e visa melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Inclui hidratação intensiva da pele, acompanhamento odontológico, uso de próteses dentárias, proteção contra o calor e vigilância médica permanente. Em países com sistemas de saúde mais robustos, esses cuidados são integrados. Em Moçambique, muitas vezes, dependem do esforço individual das famílias.

Além da doença em si, há um desafio estrutural que pesa ainda mais: o fraco poder de compra. Para muitas famílias, tratar os sintomas de uma doença rara é um luxo inacessível. Medicamentos, cremes, consultas especializadas e deslocações representam custos proibitivos. Para mitigar essa realidade, existem associações que procuram apoiar pacientes com doenças raras, facilitando o acesso a cuidados médicos e medicamentos, mas a cobertura ainda é limitada.

A história de Edmilson expõe, de forma crua, o lado invisível das doenças raras em Moçambique. Um país onde o diagnóstico tarda, o tratamento é caro e o peso recai quase sempre sobre as famílias. Ao mesmo tempo, revela uma extraordinária capacidade de resistência. De uma mãe que nunca desistiu de procurar respostas, de um adolescente que se recusa a abandonar a escola e de profissionais de saúde que, apesar das limitações, lutam para compreender e aliviar o sofrimento.

Enquanto a medicina avança na identificação de doenças raras, casos como o de Edmilson lembram que o desafio não é apenas científico. É também social, económico e humano. Dar nome à doença foi um passo decisivo. Garantir dignidade, cuidado contínuo e inclusão é o próximo.

Opinião – O País – A verdade como notícia


A 5 de Outubro de 2017, Moçambique mudou por completo. De uma jóia do gás natural ainda por explorar para um conflito armado que começou com ataques na vila de Mocímboa da Praia, em Cabo Delgado.

Em bom rigor, a invasão ao comando distrital da PRM em Mocímboa da Praia começou por volta das 23 horas do dia 4 de Outubro (segundo fontes orais no local), quando o país celebrava mais um aniversário da assinatura do Acordo Geral de Paz. Este pormenor não me parece uma mera coincidência.

No dia 5 de Outubro de 2025, o conflito em Cabo Delgado completa oito anos – metade do tempo que durou a guerra civil em Moçambique. Neste transcurso, muita coisa aconteceu. A mais grave delas é a morte brutal de cerca de 3 mil pessoas, entre civis, militares e polícias, para além do drama humanitário resultante do deslocamento forçado de mais de um milhão e quatrocentas mil pessoas.

Para assinalar este marco sombrio da nossa história contemporânea, propus-me a exercer o meu direito de cidadania, partilhando este artigo de opinião, que é, na verdade, um olhar a alguns pontos que me parecem essenciais para uma discussão colectiva.

O primeiro aspecto que me inquieta é a (aparente) normalização da barbárie que está a acontecer em Cabo Delgado. Todos, sem excepção, passámos a encarar o terrorismo como algo normal. A sociedade já não mais se comove tanto quando circulam imagens brutas de pessoas decapitadas em Cabo Delgado. Fica como se fosse apenas mais uma pessoa morta pelos terroristas, e a vida segue em frente.

Para a maioria dos jovens de Maputo, por exemplo, a situação de Cabo Delgado não lhes diz absolutamente nada. Todos os fins-de-semana são festas de rua, na praia, na discoteca, com direito a ostentação nas redes sociais.

A sociedade civil, que em Maputo levanta a voz por tudo e por nada, pouco fala do assunto de Cabo Delgado, e nunca vi uma marcha convocada para pressionar o Governo a encontrar melhores soluções para o problema.

Ah, do Governo já ouvi altos dirigentes (incluindo o antigo Presidente da República, Filipe Nyusi) a dizer que o terrorismo é um fenómeno que não acaba – uma clara sugestão de que devemos aprender a conviver com o mal como se se tratasse de um tumor benigno.

Imagino um dirigente do Governo a ser convidado, numa entrevista no estrangeiro, a caracterizar Moçambique. Acho que a resposta não fugiria desta: “O país está bem, as instituições do Estado estão a funcionar, é um país com um povo trabalhador, com muitas oportunidades para investirâ€. Isto diz muito do que ocorre no nosso substrato social, quando em contrapartida há crianças, jovens e idosos que vivem debaixo do espectro da violência, de dia e de noite, há oito anos.

Não é normal para um país que se espera uno e indivisível. A natureza está cheia de exemplos dos quais podemos aprender. Uma simples picada num pé é suficiente para pôr todo o corpo doente, porque não é um problema apenas do pé. É de todo o corpo.

A população de Cabo Delgado tornou-se carne de canhão, com a violência a chegar de todos os lados. Quando não morre pela brutalidade dos terroristas, morre de fome nas zonas de reassentamento ou morre vítima de balas dos militares que demonstram fraca capacidade de lidar com o terrorismo, devido à sua complexidade.

A Marinha de Guerra de Moçambique é citada em muitas notícias nacionais e internacionais como estando a promover mortes indiscriminadas de pescadores em Macomia, Mocímboa da Praia, na ilha de Ibo, em Palma e noutros sítios. O Exército (Infantaria) também é acusado de sistemáticas violações dos direitos humanos.

Porque é assim? Esta é a questão sobre a qual se mostra relevante reflectir.

O que me parece é que os nossos militares são formados apenas para impregnar a força bruta, e as comunidades não escapam a essa brutalidade. Depois são acusadas de não colaborarem na denúncia da movimentação dos terroristas, o que em si não faz muito sentido. Um Exército com uma estratégia bem definida não usa apenas a força das armas; recorre também ao chamado “soft power†para conquistar os corações das populações.

Há alguns anos, circulou um vídeo de militares ruandeses que apareceram a pilar numa casa, em Cabo Delgado. Não se tratava de um “show off†dos ruandeses. É aquele engajamento social que faz parte do “soft power†a que me refiro.

A diferença de actuação entres os ruandeses e a tropa moçambicana está a abrir caminhos para uma situação muito perigosa. Em Julho deste ano, a população do povoado de Namacande, distrito de Muibumbe, expulsou os militares moçambicanos, acusando-os de inoperância quando são chamados para intervir em casos de ataques terroristas.

A 11 de Setembro, na vila de Mocímboa da Praia, durante um encontro que juntou a administração do distrito, a população, os militares nacionais e os ruandeses, a população irrompeu aos gritos dizendo que prefere os ruandeses aos militares moçambicanos. O encontro terminou nessa confusão que por pouco não resvalou em violência.

Estes episódios são graves, porquanto demonstram sinais de quebra de confiança entre o Estado e a população. A ideia do contrato social está a esvair-se aos poucos e, com ela, a soberania nacional.

Quando um povo aliena a sua segurança aos estrangeiros, deve-nos envergonhar, como nação. A soberania não reside apenas nos discursos políticos, é um contrato que liga o povo à sua pátria-mãe. Garantir segurança das populaçõs é tarefa primordial do Estado moçambicano, e não de forças externas.

Nas Ciências Políticas, ensina-se que os três fins do Estado são: garantir (i) a segurança; (ii) a justiça e (iii) o bem-estar económico, social e espiritual. Nesta ordem de consideração, será que a população de Cabo Delgado sente efectivamente essas garantias?

A fechar esta parte, quero, de forma objectiva, dizer a todos os estratos da sociedade que devem indignar-se com o que está a acontecer em Cabo Delgado e devem levantar a voz até ser ouvida pelo poder político, que tem a obrigação de resolver os problemas da população. O silêncio é cúmplice.

João Saltiel coloca no seu livro O Pensar Social a seguinte pergunta: “qual é a fórmula mágica que o ex-presidente Joaquim Chissano utilizou para manter a paz por esses longos anos? Por que não pedir ao Presidente Chissano essa fórmula. Não queremos ser beefsteak de ninguém. É altura de pensarmos num Moçambique melhor, num país sem vukuvuko. Temos que pensar grandeâ€.

UM OLHAR ÀS FORÇAS ARMADAS

O actual estágio das Forças Armadas de Defesa de Moçambique é resultado de um processo histórico que começou no tempo de Samora Machel e se agudizou depois do Acordo Geral de Paz.

Durante a Luta Armada de Libertação Nacional, Moçambique recebeu muito apoio da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), hoje Rússia, China, Cuba entre outros países socialistas. O apoio foi em termos de formação e equipamento militar (as famosas AKM e AK47 são herança desse passado), para além da logística que incluía o fardamento, botas e alimentação. Este apoio estende-se até ao período da guerra civil, que começou em 1977 e terminou em 1992, com a assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP), a 4 de Outubro.

Quando a guerra civil se iniciou, Moçambique tinha uma logística militar aceitável, porque as Forças Populares de Libertação de Moçambique (FPLM) herdaram instalações militares e meios de guerra do regime colonial português. A título ilustrativo, a Marinha de Guerra era forte. Contava com a Base Naval de Metangula, em Niassa, que era a melhor do país, com oficinas para a reparação de navios de guerra. Destaca-se, igualmente, a Base Naval de Pemba, em Cabo Delgado.

Para aprimorar os conhecimentos de gestão logística militar, Samora Machel optou por enviar em massa militares para a URSS e Cuba, para estudarem a gestão e manutenção de equipamentos militares.

A partir de 1984, o apoio da URSS a Moçambique baixou consideravelmente, depois de Samora Machel assinar o Acordo de Nkomati com o regime do Apartheid, da Ãfrica do Sul, como parte da estratégia para a Ãfrica do Sul deixar de apoiar a Renamo.

Este acordo não foi bem visto pela URSS, que entendeu que era uma traição às causas do socialismo, agudizado pela visita histórica de Samora Machel aos Estados Unidos da América, em 1985. 

Para a União Soviética, Moçambique estava a piscar para o Ocidente, seu inimigo ideológico. Nessa altura, a economia de Moçambique estava de rastos, devido à intensificação da guerra civil.

A morte de Samora Machel, em Outubro de 1986, piorou a situação logística dos militares. Esta crise de logística estendeu-se até ao consulado de Joaquim Chissano, que assumiu a Presidência da República em 1986.

A guerra terminou em 1992, com a assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP), e foi estabelecida a missão de pacificação de Moçambique, através da ONUMOZ (sobre este assunto recomendo a leitura do livro Democracia e Outras Coisas de Moçambique, do cientista político Arcénio Cuco).

O Protocolo IV do AGP foi a base para a criação das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), como um Exército republicano, apartidário, com a missão de defender a soberania e a integridade territorial do país. 

O AGP previa a constituição de uma Defesa com um efectivo de 30 mil homens até à tomada de posse do Governo democraticamente eleito (depois das eleições de 1994). Esse efectivo estaria distribuído da seguinte forma: 24 000 do Exército; 4000 da Força Aérea e 2000 da Marinha. Esses efectivos, descreve a Lei do AGP, seriam fornecidos, 50% pelas então Forças Armadas de Moçambique e 50% pela Renamo (para mais informação pode-se consultar a Lei n.°13/92, de 14 de Outubro).

A composição das FADM nos moldes do AGP foi determinante para aquilo a que se assistiu a seguir nos governos da Frelimo – um autêntico abandono das Forças Armadas. 

A Força Aérea, em particular, morreu literalmente em 1992. Quando foi assinado o AGP, Moçambique tinha stock de motores de aviões militares MiG-17 e MiG-21, que sumiram misteriosamente, e nunca mais foi visto um MiG no ar. 

É muito provável que a existência de muitos militares provenientes da Renamo até nos cargos de topo das Forças Armadas tenha sido a causa desse desleixo, pois a possibilidade de interferir na sua actuação era menor. Em contrapartida, o Governo investiu bastante na Polícia da República de Moçambique, onde tem controlo de toda a cadeia de comando.

Quando Armando Guebuza assumiu o poder, em 2005, tentou mudar este paradigma, mas, porque tinha passado muito tempo sem investimento, não foi a tempo de revitalizar por completo este sector nevrálgico do Estado, de tal forma que, quando o terrorismo começou, em 2017, as Forças Armadas praticamente não tinham meios de combate.

Esta viagem no tempo era para chegar ao essencial: Moçambique secundarizou a Defesa ao longo dos anos que se seguiram ao AGP e foi encontrado em contrapé pelo terrorismo, por isso enfrenta o fenómeno aos improvisos.

Há um adágio militar bastante interessante que diz que “em tempos de guerra não se limpam armasâ€. Ou seja, a Defesa deve estar nas prioridades de qualquer governo, mesmo em tempos de paz.

A falta de logística para os militares que combatem em Cabo Delgado é uma realidade idisfarçável. Falo de logística, no seu todo (equipamento bélico, munições, aprumo e comida).

Recentemente, 300 militares que estiveram a combater o terrorismo em Macomia foram mandados voltar à sua procedência, depois de terem combatido sem receberem salário ou qualquer subsídio, e até relataram falta de comida, armamento e munições.

O Estado-Maior General disse, em comunicado de imprensa, que o processo de (re)integração daqueles jovens não obedeceu à lei e demais regulamentos que regem as Forças Armadas, porque alguns passaram para a reserva de disponibilidade, cumprido o Serviço Militar, e outros estão na situação de expulsos das FADM por diversos actos de indisciplina, incluindo a deserção.

Este episódio é grave e revelador de desorganização na liderança das Forças Armadas. É que, mesmo ignorando a questão de logística, da mesma forma que aqueles militares “ilegais†estiveram no teatro operacional, com acesso a armas e estratégias de combate, então podiam estar envolvidos também terroristas.

Mais grave ainda é que esses militares foram esbulhados do teatro operacional quando ainda tinham vontade de combater o inimigo e mostraram bravura nos combates que travaram. A pergunta que faço é: afinal, o que queremos concretamente, como país?

E se por via das armas não se ganha o conflito, porque não empreender esforços sinceros para o diálogo? Filipe Nyusi disse outrora que não havia rostos do terrorismo em Moçambique, por isso era difícil dialogar. 

Entretanto, tenho sérias dúvidas de que o Estado não conheça os líderes ou, pelo menos, alguns líderes. Até porque alguns discursos dos próprios governantes são contraditórios. Uma dessas contradições está relacionada ao facto de, em Agosto de 2023, Filipe Nyusi ter anunciado o abate de Ibin Omar, que era tido como um dos moçambicanos líderes da insurgência em Cabo Delgado. Com este facto, a pergunta que não quer calar é: afinal, são ou não conhecidos os líderes da insurgência em Cabo Delgado?

Tal como se sabia de Ibin, estou a crer que o Estado, através da Inteligência Militar e dos Serviços de Informação e Segurança do Estado, conhece os líderes ou, no mínimo, alguns líderes. E, se realmente não os conhece, que se alie à população que em várias circunstâncias, na imprensa ou nos encontros públicos, relaciona a insurgência com jovens locais e bem conhecidos. Contudo, para que a população colabore, mais uma vez, deve haver uma estratégia do Estado para conquistar a sua confiança.

INSURGÊNCIA ISLÂMICA?

Outro aspecto de realce é a frequente associação da insurgência ao Islão – narrativa da qual discordo, porque não encontro sinais claros de tentativa de estabelecimento de um califado (uma República governada com base em princípios e normas islâmicas). O que a leitura do fenómeno me sugere é a utilização da religião islâmica como veículo para facilmente conseguir militantes, porque talvez usar a narrativa de pobreza e exclusão social não fosse mexer tanto com as pessoas quanto a fé religiosa.

Lembremo-nos de que a radicalização teve os seus indícios em Mocímboa da Praia, de onde alguns jovens terão ido ao Sudão, supostamente estudar o Islão “puroâ€. Mocímboa da Praia é o distrito de Cabo Delgado onde a religião islâmica é professada por mais de 80% da população, algo que terá sido devidamente estudado e explorado pelos cérebros da insurgência.

Outro elemento que suporta a minha posição é o facto de os primeiros “al-shabaab†se comportarem de forma anti-islâmica, entrando nas mesquitas com sapatos, catanas, facas e de vestes que não respeitavam o padrão dos muçlmanos. Estes factos foram denunciados pela população em Mocímboa da Praia.

“Moçambique é um país predominantemente cristão (5,7 milhões de católicos, 2,5 milhões de protestantes), com uma grande comunidade muçulmana (3,6 milhões, majoritariamente sunitas), majoritária nas províncias nortenhas de Niassa (61%) e Cabo Delgado (54%) e nas zonas costeiras. O Sul de Moçambique e as suas principais cidades são predominantemente cristãos. A Igreja Universal do Reino de Deus, neopentecostal brasileira, tem conhecido uma rápida expansão no país, e a religião sionista é praticada por 3,1 milhões de moçambicanos. As comunidades religiosas tradicionais africanas estão também fortemente representadas, particularmente nas regiões rurais. Na província de Cabo Delgado, onde ocorreu a maior parte dos ataques jihadistas, os católicos são muito numerosos (cerca de 36%), estando também presentes comunidades menores de outras denominações religiosas (protestantes e sionistas)†– https://www.acn.org.br/mocambique/.

Estes dados levam a pensar noutras geografias que deviam ser o ponto “legítimo†para o início da insurgência islâmica no Norte de Moçambique, e não necessariamente Cabo Delgado, que, no cômputo geral, não tem a população maioritariamente islâmica, salvo melhor entendimento.

A guerra em Cabo Delgado, em meu entender, está associada aos recursos naturais, marinhos, energéticos e florestais que abundam na sua extensão. A religião pode ser uma estratégia de distracção para dissimular os reais interesses neste conflito.

Alguém consegue responder com objectividade quem explorava os rubis em Montepuez? Não eram os estrangeiros que dominavam o circuito de contrabando de gemas e fomentavam o garimpo? Para onde foram os garimpeiros e compradores que foram, várias vezes, alvo de ofensivas da Unidade de Intervenção Rápida? Será que esses estrangeiros que lucravam com o negócio ilegal ficaram felizes com essas ofensivas visando retirá-los do local? Seria ingenuidade demais dizer que “simâ€.

E, mais do que ofensivas de repressão policial, que alternativas de sobrevivência foram dadas aos jovens garimpeiros moçambicanos? Nenhuma. Penso que é aqui que reside o erro que o Estado cometeu e continua a cometer, ao ignorar alguns sinais, como é o caso da insatisfação da população de Palma e Mocímboa da Praia, que não vê as suas expectativas satisfeitas na pretensa retoma do projecto de construção da fábrica de liquefação de gás natural em Palma.

SOLUÇÕES SINUOSAS

No auge do terrorismo (2020-2021), o desgaste das Forças de Defesa e Segurança foi notório, com a intensificação dos ataques, alastramento do terrorismo por mais pontos de Cabo Delgado, Nampula e Niassa e sucessivas baixas no campo de batalha. 

Moçambique accionou a Comunidade de Desenvolvimento da Ãfrica Austral (SADC), que, através do mecanismo de cooperação militar, respondeu positivamente, anunciando a criação da Missão da Comunidade de Desenvolvimento da Ãfrica Austral em Moçambique (SAMIM).

Entretanto, antes mesmo do posicionamento da força da SAMIM em Cabo Delgado, Filipe Nyusi confirmou a chegada a Moçambique de mil militares ruandeses. Esta situação não agradou à SADC, que não entendeu a posição de Moçambique de estabelecer um “acordo†bilateral com um país que (i) não faz parte do bloco regional e (ii) tem um conflito militar com um Estado-membro da SADC, a República Democrática do Congo.

De facto, foi uma situação deselegante, mas há que reconhecer que a chegada de militares ruandeses foi determinante para a recuperação da vila de Mocímboa da Praia em Agosto de 2021, depois de ter sido ocupada pelos terroristas por um ano. 

A SAMIM acabou por deixar Moçambique em Julho de 2024, e ficaram os ruandeses em Cabo Delgado. Que Ruanda é, neste momento, uma potência militar em Ãfrica, é inquestionável. Esta foi, diga-se, a estratégia de sobrevivência que aquele país adoptou por estar localizado num “anel de fogoâ€, com conflitos constantes com os seus vizinhos, especificamente, Burundi e República Democrática do Congo.

Ruanda aperfeiçoou a sua estratégia de guerra ao longo do tempo, sobretudo depois do genocídio de 1994. Há quem entenda que, para Paul Kagamé sobreviver depois daquele evento, tinha de formar um exército forte.

Outrossim, Ruanda é um satélite da França e da Inglaterra naquela região de Ãfrica, razão pela qual recebe equipamento militar de ponta.

Este histórico faz-me apreciar, num primeiro plano, a presença dos ruandeses em território nacional se olharmos na perspectiva de cooperação e capacitação do Exército de Moçambique.

Entretanto, fico perplexo quando noto o secretismo em torno dessa cooperação militar. Ainda que digam que assuntos de defesa fazem parte do segredo de Estado, não encontro cabimento para esta falta de prestação de informação aos moçambicanos.

O Presidente da República, quando toma posse, jura respeitar e fazer cumprir a Constituição da República de Moçambique. É esta Constituição que, no n.° 1 do art. 2, dispõe que “A soberania reside no povoâ€. 

O Vocabulário Jurídico de De Plácido e Silva (32ª edição) define soberania como “…a qualidade do que é soberano, ou possui a autoridade suprema; o poderio supremo, ou o poder sobre todosâ€. Nesta ordem de ideias, era expectável que antes de uma decisão deste nível fosse ouvido o povo que está formalmente representado na Assembleia da República. Até porque o anterior Presidente tinha um slogan interessante: o povo é o meu patrão!

Assuntos de defesa mexem com o sentido existencial de todos nós, como país. A história pode-nos penalizar se no futuro acontecerem situações graves derivadas destes acordos secretos. Lembremo-nos de que António Carlos do Rosário (operativo do SISE) disse, durante o julgamento do caso das dívidas ocultas, que havia um plano em marcha de divisão de Moçambique. Verdade ou não, a sucessão de acontecimentos em Cabo Delgado faz-me não desvalorizar aquelas palavras.

Analisando atentamente os factos, parece-me evidente que Filipe Nyusi correu para buscar apoio militar do Ruanda por pressão da TotalEnergies, que tem interesses comerciais em Palma. 

Em tudo isto, Moçambique deve proteger a sua soberania. Está claro que não vamos contar eternamente com o Exército dos outros para garantir a nossa segurança, daí que deve haver clareza nos objectivos que o país tem com o Ruanda: por quanto tempo será esta intervenção militar e quais são as contrapartidas que os ruandeses recebem.

Foi assim no passado. Aquando do processo de pacificação de Moçambique depois da guerra civil, as Nações Unidas intervieram com 7 mil soldados. A missão era bem clara em termos de cronograma, e, depois da realização das primeiras eleições em 1994, essa missão terminou.

O mesmo se verificou aquando da constituição da SAMIM. Tudo era claro: número de soldados de cada país, o mandato, e, antes de qualquer prorrogação da missão, o Órgão da SADC de Cooperação nas áreas de Defesa, Política e Segurança reunia-se para discutir e deliberar.

O Presidente da República, Daniel Chapo, (também com um slogan interessante inspirado no físico Albert Einstein (fazer diferente para obter resultados diferentes) tem a responsabilidade, neste momento, de fazer verdadeiramente diferente. Até para não carregar sozinho, no futuro, os pecados que se forem revelando.

É que está claro que o Ruanda ganha alguma coisa com a presença militar em Cabo Delgado. E, se um dia se decidir por sua retirada, será que Kigali vai deixar Moçambique de ânimo leve? Duvido! E, no meio disso, o que pode vir a acontecer em Cabo Delgado? Só o futuro responderá.

Uma coisa é certa: não há nada que os ruandeses fazem que os soldados moçambicanos não possam fazer, desde que haja boa formação, disciplina, tecnologia militar e logística adequada. Dito de outra forma, haja criação de condições para que as nossas Forças de Defesa e Segurança possam actuar sem dificuldades.

Por falar em logística, um soldado altamente equipado é um factor dissuasor do inimigo. Quem vê um soldado ruandês ao lado de um soldado moçambicano nota uma diferença extrema.

Quando o inimigo planeia um ataque a uma posição, naturalmente, faz a leitura da forma como os militares estão equipados, e isso é determinante para decidir por atacar ou não. Um exemplo mais ilucidativo é quando se repara para um soldado norte-americano num teatro operacional. A forma como se apresenta faz o inimigo pensar duas vezes para atacá-lo. É isto que Moçambique precisa de fazer com os seus homens.

*Esta opinião resulta das minhas reflexões enquanto jornalista com passagem pelo TON e contou com ideias de pessoas abalizadas nas Relações Internacionais; Ciências Políticas e na área militar, por isso agradeço a todos pela disponibilidade para conversa. Agradecimentos também ao cientista político Arcénio Cuco pela discussão de ideias e correcção do artigo.

"Não escolhemos a notícia, escolhemos te informar"

Sair da versão mobile