Vozes da Resistência: Mulheres da SADC Debatem Direitos Humanos e Justiça de Género

No âmbito das celebrações do Mês Internacional da Mulher, a Plataforma DECIDE promoveu um webinar regional que reuniu activistas, juristas, investigadoras e defensoras dos direitos humanos de vários países da África Austral para discutir os principais desafios enfrentados pelas mulheres na região da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral.

O encontro virtual juntou participantes de Moçambique, Zimbabwe, África do Sul e Essuatíni numa reflexão profunda sobre conflitos armados, violência baseada no género, fragilidade institucional, acesso à justiça e o papel da sociedade civil na promoção da igualdade.

Conflitos armados agravam vulnerabilidade feminina

A activista zimbabweana Michelle V. abriu o debate alertando que os conflitos armados e a instabilidade política continuam a afectar desproporcionalmente mulheres e raparigas em vários países da região.

Segundo Michelle V., a violência em contextos de conflito vai além da dimensão militar, transformando-se numa crise estrutural de direitos humanos.

“Em tempos de conflito, a segurança das mulheres é posta em causa; os sistemas de saúde, de subsistência e de justiça, que as deveriam proteger, desmoronam-se.”

A defensora dos direitos humanos denunciou aquilo que classificou como “armamentização da instabilidade”, fenómeno que normaliza abusos, violência sexual e exclusão feminina durante períodos de crise política ou militar.

Apesar disso, Michelle V. destacou o papel das mulheres como agentes activas de resistência, mediação e construção da paz, sublinhando estudos que indicam que processos de paz com participação feminina têm maiores probabilidades de sucesso e sustentabilidade.

Moçambique enfrenta distância entre leis e realidade

Representando Moçambique, a jurista e activista Ferosa Chaúque apresentou um retrato preocupante sobre os desafios enfrentados pelas mulheres moçambicanas.

Embora reconheça avanços legislativos importantes — como a Constituição da República, a Lei da Família e a Lei de Prevenção e Combate às Uniões Prematuras —, a advogada alertou que a implementação efectiva das leis continua frágil.

Segundo Ferosa Chaúque, factores como pobreza extrema, normas patriarcais e desigualdade estrutural mantêm milhares de mulheres e raparigas em situação de vulnerabilidade.

Dados apresentados durante o webinar indicam que cerca de 48% das raparigas moçambicanas entram em uniões antes dos 18 anos, enquanto grande parte da população continua abaixo da linha da pobreza.

“Existe uma necessidade clara de reforçar a implementação das leis existentes e garantir uma maior inclusão das mulheres nos processos de governação.”

A activista alertou ainda para o impacto das mudanças climáticas, deslocamentos forçados e crises humanitárias, que aumentam os riscos de exploração, violência e abandono escolar entre mulheres e crianças.

Suspensão do Tribunal da SADC preocupa activistas

A investigadora de género Nomsa Ntshingila centrou a sua intervenção nos mecanismos regionais de protecção dos direitos humanos.

Segundo a especialista, o Protocolo da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral sobre Género e Desenvolvimento representa um avanço importante, mas continua enfraquecido pela falta de vontade política e pela implementação limitada nos Estados-membros.

Um dos principais pontos levantados foi a suspensão do Tribunal da SADC, considerada por activistas como um retrocesso significativo na responsabilização regional.

“Sem um tribunal regional, é muito difícil responsabilizar os estados pelas violações de direitos humanos em curso nos seus países.”

Nomsa Ntshingila destacou que, sem mecanismos regionais fortes, mulheres vítimas de violência política, disputas de terra, perseguição ou discriminação ficam dependentes apenas dos sistemas judiciais nacionais, muitas vezes frágeis ou politicamente condicionados.

Sociedade civil critica “femocracia” e representação simbólica

A directora executiva da organização sul-africana We Are The People, Lindiwe Mtambo, trouxe uma análise crítica sobre os modelos de empoderamento feminino adoptados na região.

A activista questionou o uso recorrente do conceito de “resiliência feminina”, argumentando que, muitas vezes, essa narrativa serve para normalizar o sofrimento e esconder a incapacidade dos Estados em garantir protecção efectiva.

Lindiwe Mtambo criticou igualmente o fenómeno da “femocracia”, caracterizado pela promoção simbólica de mulheres em estruturas políticas sem mudanças reais nas condições de vida da maioria feminina.

Apesar de países como a África do Sul apresentarem elevada representação parlamentar feminina, a activista considera que isso nem sempre se traduz em justiça social ou igualdade prática.

“É importante que as mulheres sejam vistas como especialistas nos seus próprios problemas.”

Segundo Lindiwe Mtambo, políticas públicas devem ser construídas a partir das experiências reais das mulheres nas comunidades e não apenas através de indicadores estatísticos de representação.

Inclusão masculina surge como prioridade

Durante o encerramento do webinar, moderado por Nura Edina, as participantes defenderam novas abordagens para fortalecer o acesso à justiça e reduzir a violência baseada no género.

Uma das recomendações centrais foi a inclusão de homens e rapazes nos debates sobre igualdade de género.

Ferosa Chaúque argumentou que o envolvimento masculino é essencial para mudanças sociais duradouras:

“Precisamos de incluir homens e adolescentes, pois eles são os homens de amanhã, potenciais legisladores ou potenciais agressores.”

As oradoras defenderam ainda a criação de tribunais especializados em violência baseada no género e protecção da criança, garantindo tratamento prioritário e adequado para estes crimes.

Um apelo regional por justiça efectiva

O webinar terminou com um apelo conjunto para que os governos da região austral coloquem a segurança, dignidade e participação das mulheres no centro das políticas públicas.

As participantes alertaram que, sem instituições fortes, justiça acessível e combate efectivo às desigualdades estruturais, a região continuará vulnerável a ciclos de violência, exclusão e impunidade.

Para as activistas presentes, a luta pelos direitos das mulheres na África Austral não deve limitar-se a discursos simbólicos, mas traduzir-se em mudanças concretas na vida das comunidades.

O Labirinto do Aborto em Moçambique: Entre a Lei e o Mercado da Morte

Uma investigação jornalística do Centro de Integridade Pública (CIP) expõe um sistema marcado por burocracia, corrupção e medo, onde milhares de mulheres moçambicanas continuam a arriscar a vida mesmo depois da legalização do aborto seguro em determinadas circunstâncias.

Apesar de a legislação moçambicana permitir a interrupção voluntária da gravidez até às 12 semanas, a realidade encontrada nos hospitais públicos revela um cenário completamente diferente. O acesso ao serviço legal continua condicionado por atrasos administrativos, cobranças ilícitas, falta de informação e práticas clandestinas dentro das próprias unidades sanitárias.

Segundo um estudo nacional publicado em 2025, o aborto inseguro é responsável por mais de uma em cada nove mortes maternas em Moçambique. As estimativas apontam para cerca de 277 mil abortos realizados anualmente no país, o equivalente a quase 40 abortos por cada mil mulheres em idade reprodutiva.

Burocracia e corrupção empurram mulheres para o clandestino

A história de Joana Balate, de 24 anos, mostra como o caminho legal pode transformar-se rapidamente num labirinto perigoso.

Após engravidar de um homem casado e recear a reacção da família, Joana procurou o Hospital Primeiro de Maio em busca de um aborto seguro e legal. Em vez de assistência rápida, encontrou um processo burocrático complexo, marcado por exigências administrativas, cartas de motivação e longas esperas por pareceres médicos.

Enquanto o tempo corria contra o limite legal de 12 semanas, surgiu uma alternativa dentro do próprio hospital: uma enfermeira ofereceu-se para resolver o problema clandestinamente por três mil meticais.

“O que estavam a dizer é que o processo legal também tem um custo”, relatou Joana ao CIP.

Sem alternativas, a jovem aceitou tomar comprimidos em casa. As dores intensas, hemorragias e complicações posteriores resultaram numa trompa rompida, reduzindo drasticamente as suas hipóteses futuras de engravidar.

Investigação do CIP revela tabela informal de abortos

A investigação do Centro de Integridade Pública documentou práticas ilegais dentro de unidades sanitárias públicas.

Ao simularem o caso de uma jovem de 18 anos grávida de quatro meses, investigadores ouviram profissionais de saúde explicarem abertamente os preços cobrados para abortos clandestinos.

Segundo os relatos recolhidos, o cálculo obedecia a uma lógica simples: cerca de 1.500 meticais por cada mês de gestação.

A investigação revela ainda que alguns profissionais se mostraram disponíveis para realizar procedimentos avançados sem exames médicos, ecografias ou avaliações clínicas adequadas, expondo as pacientes a riscos graves de infecção, hemorragias e morte.

Mulheres com deficiência enfrentam exclusão ainda maior

O relatório aponta que mulheres com deficiência encontram obstáculos ainda mais severos para aceder aos serviços de saúde sexual e reprodutiva.

A ausência de intérpretes de língua de sinais, materiais acessíveis e informação adaptada dificulta completamente o acesso ao aborto seguro. Em zonas rurais, a distância até às unidades sanitárias agrava ainda mais o problema.

Organizações da sociedade civil alertam que muitas mulheres acabam dependentes de intermediários ou práticas clandestinas devido à exclusão estrutural dos serviços públicos.

Casos de sobrevivência expõem falhas do sistema

A investigação apresenta também os testemunhos de Maria Cosa e Carla, duas mulheres que sobreviveram a procedimentos clandestinos marcados por negligência e exploração financeira.

Maria Cosa tentou inicialmente recorrer ao sistema legal, mas acabou empurrada para uma solução clandestina devido à demora institucional. Após pagar três mil meticais por um procedimento inseguro, sofreu uma hemorragia grave.

“Desmaiei na casa de banho porque não parava de perder sangue”, contou.

Já Carla relata ter sido vítima de extorsão depois de comprimidos vendidos por uma enfermeira do Centro de Saúde da Quinta não terem provocado a interrupção completa da gravidez. A mesma profissional exigiu mais cinco mil meticais para realizar uma “raspagem” improvisada.

“Ela estava a cobrar aquele valor porque viu que eu não ia ter outra alternativa”, desabafou.

Autoridades reconhecem desafios no sistema de saúde

O Ministério da Saúde tem defendido publicamente que os serviços de aborto previstos por lei devem ser gratuitos nas unidades sanitárias do Estado.

A Autoridade Reguladora de Medicamentos (ARM) afirma igualmente que medicamentos utilizados para interrupção voluntária da gravidez são controlados e só devem circular legalmente através do sistema autorizado.

No entanto, organizações da sociedade civil denunciam falhas persistentes de fiscalização. O Observatório Cidadão para Saúde refere que quatro em cada dez utentes manifestam insatisfação com os serviços de saúde devido a práticas de corrupção, cobranças ilícitas e mau atendimento.

Estigma social continua a afastar mulheres

Além dos obstáculos institucionais, especialistas apontam o peso do estigma social como um dos principais factores que empurram mulheres para circuitos clandestinos.

Juristas e activistas dos direitos humanos defendem que muitos profissionais de saúde actuam como “detractores de consciência”, desencorajando pacientes através de atitudes moralistas ou recusas indirectas de atendimento.

A falta de informação sobre os direitos reprodutivos também continua elevada, sobretudo entre adolescentes e mulheres das zonas periféricas e rurais.

Entre a lei e a realidade

Embora Moçambique tenha avançado legalmente ao permitir o aborto em determinadas circunstâncias, a implementação prática continua profundamente desigual.

A investigação jornalística do Centro de Integridade Pública revela que, para milhares de mulheres, o direito ao aborto seguro existe apenas no papel.

Enquanto persistirem corrupção, burocracia excessiva, falta de fiscalização e estigma social, muitas continuarão obrigadas a escolher entre o silêncio, o medo e procedimentos clandestinos que colocam em risco as suas próprias vidas.

Crise de Combustíveis em Moçambique: Entre o sufoco dos transportadores e a escassez de divisas

A persistente escassez de combustíveis em Moçambique continua a agravar a pressão sobre a economia nacional, afectando particularmente o sector dos transportes, o custo de vida e a actividade produtiva. Apesar dos recentes reajustes nos preços dos combustíveis anunciados pelo Governo, automobilistas e transportadores relatam dificuldades contínuas para abastecer, numa crise que já ameaça o funcionamento regular de vários serviços essenciais.

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A industrialização é crucial para a economia…

Maputo, 17 Mai (AIM) – O Presidente da República moçambicano, Daniel Chapo, acredita que a industrialização da cadeia de valor do caju é uma condição crucial para alcançar a independência económica e fortalecer a capacidade produtiva nacional.

Segundo Chapo, falando na cerimónia de lançamento do livro intitulado “A Economia do Caju em Moçambique: O Contexto das Políticas de Bretton Woods e os Pressupostos da Engenharia de Reindustrialização”, da autoria do académico e membro sénior do partido no poder, a Frelimo, António Niquice.

“Não basta produzir, é preciso transformar. Não basta exportar recursos, é preciso acrescentar valor”, disse, lembrando que Moçambique já foi o maior produtor mundial de castanha de caju.

Atualmente, está entre os sete primeiros.

O presidente acredita que o verdadeiro desenvolvimento só acontece quando os recursos nacionais são convertidos em indústria, emprego, inovação e melhoria das condições de vida da população.

Explicou que a reindustrialização da castanha de caju também deveria representar uma oportunidade concreta para a inclusão económica e o empoderamento das mulheres.

“A obra de Niquice é um importante contributo científico e patriótico para o debate sobre a industrialização, a soberania económica e a transformação estrutural da economia nacional. O livro constitui uma profunda reflexão sobre os desafios históricos do país e os caminhos necessários para a construção de uma economia mais resiliente, moderna e produtiva”, afirmou.

Chapo apelou ainda às universidades, aos investigadores e aos jovens moçambicanos para que aprofundem o estudo da economia nacional, a fim de produzir conhecimento orientado para o desenvolvimento do país.

“A transformação estrutural da nossa economia também começa com a produção de ideias. A independência económica de Moçambique dependerá da capacidade nacional de transformar os recursos naturais em resultados concretos para o povo.

Segundo o Presidente, falando também no distrito de Ribáuè, província nortenha de Nampula, o país deve apostar numa comercialização agrícola mais eficiente, organizada e previsível como forma de reduzir a vulnerabilidade económica das famílias rurais.

O reforço dos mecanismos de comercialização, disse, constitui uma resposta estratégica aos desafios enfrentados pelos produtores nacionais, especialmente face aos impactos das alterações climáticas.

“Uma comercialização agrícola mais eficiente, organizada e previsível é uma componente essencial da resposta à vulnerabilidade económica das famílias rurais”, afirmou.

Apesar da resiliência demonstrada pelos agricultores moçambicanos, disse ele, o sector continua exposto aos efeitos de secas, cheias, ciclones e outros choques climáticos.

Segundo Chapo, cerca de 441 mil hectares foram afectados por fenómenos climáticos extremos durante a actual campanha agrícola, dos quais cerca de 54 mil hectares foram perdidos, afectando cerca de 300 mil produtores em todo o país.

“Por trás desses números estão famílias, sonhos e histórias de vida”, disse ele.

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Recurso da Privinvest contra Moçambique…

Maputo, 17 Mai (AIM) – Os advogados de Moçambique, Peters & Peters, no caso das “dívidas ocultas”, revelaram que o recurso interposto pelo grupo Privinvest, sediado em Abu Dhabi, no sistema de justiça britânico foi rejeitado por incumprimento das condições impostas.

O caso diz respeito a empréstimos de mais de dois mil milhões de dólares americanos concedidos pelos bancos Credit Suisse e VTB da Rússia em 2013 e 2014 a três empresas moçambicanas fraudulentas (Proindicus, Ematum e MAM), todas efectivamente geridas pelo serviço de segurança SISE.

Em teoria, os empréstimos destinavam-se, entre outras coisas, a uma frota de pesca de atum, a estaleiros navais e à segurança marítima. Mas nenhum desses empreendimentos decolou e logo faliu.

Os empréstimos só foram possíveis porque o Estado moçambicano forneceu garantias soberanas de que, se as empresas falissem, o Estado reembolsaria o dinheiro. Quem assinou as garantias foi o ex-ministro das Finanças Manuel Chang.

O dinheiro foi, não para Moçambique, mas directamente para a Privinvest como único contratante das três empresas. A Privinvest vendeu então às empresas barcos de pesca, navios de patrulha, estações de radar e outros activos a preços muito inflacionados. Uma auditoria independente às três empresas estimou a sobrefacturação em cerca de 700 milhões de dólares.

Segundo o escritório de advogados Peters & Peters, que representa Moçambique, o recurso interposto pela Privinvest contra o acórdão do processo “dívidas ocultas” não cumpriu as condições de segurança impostas pelo Tribunal de Recurso.

“Consequentemente, a sentença proferida pelo juiz Robin Knowles em julho de 2024 é definitiva contra as entidades empresariais do grupo Privinvest, que também são responsáveis ​​perante a República pelos custos do recurso”, lê-se no comunicado da empresa.

Os advogados explicaram ainda que continuam em curso ações judiciais para obter compensações financeiras dos herdeiros do falecido fundador da Privinvest, Iskandar Safa, falecido em 2024.

Na sentença proferida em julho de 2024 pelo Tribunal Comercial de Londres, o juiz Knowles ordenou que o grupo naval pagasse aproximadamente 1,9 mil milhões de dólares em danos.

A Safa e a Privinvest foram consideradas culpadas no ano passado por subornar o então Ministro das Finanças de Moçambique, Manuel Chang.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) de Moçambique solicitou autorização para incluir a viúva, Clara Martinez Thedy de Safa, e os filhos, Akram Safa e Alejandro Safa, como arguidos para dar continuidade ao processo.

O mesmo juiz autorizou a Privinvest a avançar com um recurso, cujo julgamento estava previsto para junho.

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A dívida pública atingiu mais de 17 mil milhões de dólares…

Maputo, 17 Mai (AIM) – A dívida pública de Moçambique atingiu, nos últimos cinco anos, 1.090 biliões de meticais (cerca de 17,1 mil milhões de dólares ao câmbio actual), o que corresponde a 72,23 por cento do Produto Interno Bruto (PIB).

De acordo com a Conta Geral do Estado (CGE) de 2025, a dívida pública do país cresceu 20 por cento nos últimos cinco anos.

“A dívida pública cresceu de 909,1 mil milhões em 2021 para 1,090 biliões de meticais. Este aumento foi em grande parte impulsionado pelo crescimento acelerado da dívida interna, com maior ênfase na dívida de curto prazo justificada pela fraca procura de instrumentos de médio prazo”, lê-se no documento.

Significa que o stock da dívida pública continua predominantemente composto por dívida externa, que representa 56 por cento do total, enquanto os restantes 44 por cento correspondem à dívida interna.

“O saldo acumulado da dívida pública no final do exercício económico de 2025, excluindo garantias do Estado, ascendeu ao equivalente a 72,23 por cento do PIB, com um aumento nominal de 4,5 por cento face a 2024”, lê-se no relatório.

Nos últimos cinco anos, o stock de Obrigações do Tesouro aumentou 6 por cento, para 193,3 mil milhões de meticais, o equivalente a 12,8 por cento do PIB.

De acordo com o último relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), Moçambique enfrenta condições de financiamento cada vez mais difíceis, influenciadas por atrasos no serviço da dívida. Isto levou a cortes na aquisição de bens e serviços em 2025.

No final de Março, o país pagou integralmente a sua dívida pendente de 515,04 milhões de Direitos de Saque Especiais (equivalente a 630,1 milhões de dólares americanos) ao FMI.

A ministra da Fazenda, Carla Louveira, afirmou que o pagamento integral da dívida visa restaurar a credibilidade do país no mercado internacional.

Segundo Louveira, o reembolso da dívida do país ao FMI deve ser encarado como um sinal de reforço da posição externa e de maior autonomia na condução da política económica, “o que tende a melhorar o perfil de risco soberano”.

A dívida pendente do país caiu para zero no final de Março. Moçambique é o único país nesta situação entre 85 países listados.

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Cahora Bassa adquire 25,2 por cento da LAM…

Maputo, 17 de Maio (AIM) – A Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), empresa que explora a barragem de Cahora Bassa, no rio Zambeze, na província central de Tete, aprovou a aquisição de 25,2 por cento do capital social da empresa estatal Linhas Aéreas de Moçambique (LAM).

A aquisição faz parte do plano do governo para reestruturar a LAM. No âmbito do mesmo plano, duas outras empresas públicas, a empresa ferroviária e portuária, CFM, e a companhia de seguros EMOSE também adquiriram 15,4 por cento da participação da LAM, investindo
22 milhões de dólares cada.

Estas empresas são responsáveis ​​pelo comité de reestruturação da LAM, que tem como missão resolver a actual crise financeira da LAM e normalizar as operações da empresa.

De acordo com a Conta Geral do Estado do HCB 2025, foi aprovado um investimento de 36 milhões de dólares para permitir a criação da Fly Moz, entidade que visa garantir o financiamento da LAM.

O documento aponta ainda que o Estado subsidiou directamente a LAM com 255,4 milhões de meticais em 2025.

Há um ano foi anunciada a intenção de alienar 91 por cento do capital social da LAM, mas estas três operações ainda totalizam apenas 56 por cento.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou que uma estratégia transparente é crucial para melhorar a eficiência do LAM e garantir que os investimentos se baseiam em análises rigorosas de custo-benefício.

Nos últimos 10 anos, a LAM, que operava com apenas dois aviões, foi abalada por uma crise financeira envolvendo corrupção praticada pelos trabalhadores da empresa durante a aquisição de serviços. A empresa registou dívidas com fornecedores, avaliadas em mais de 230 milhões de dólares, em consequência de peculato.

Em 2024, a LAM estava sob a gestão da empresa sul-africana Fly Modern Ark (FMA), que foi contratada pelo governo para trazer rentabilidade à empresa e resgatá-la da falência. Porém, o esforço não resolveu nada.

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