O CONCEITO de estradas com portagem foi introduzido em Moçambique com o propósito de viabilizar o financiamento da construção, manutenção, operação e melhoria das infra-estruturas rodoviárias, de modo a garantir maior qualidade e segurança. Do outro lado da moeda, está a ideia cidadanista de “utilizador-pagador” que, teoricamente liberta o Estado da responsabilidade directa pelos custos de operação das estradas com portagem. São várias as ilações que foram sendo tiradas ao longo do tempo desde que esta filosofia foi introduzida no país, com palco pioneiro na EN4. É compreensível que, em vários momentos, os utilizadores desta via tenham aproveitado determinadas circunstâncias para manifestar dissenso em relação ao pagamento, o que não deixa de ser natural na lógica dos humanos. Na verdade, a irresignação a pagamentos não é exclusiva às tarifas de portagens. Basta ver as soluções a que o Estado deve recorrer para garantir a colecta de impostos, tanto aos cidadãos como a empresas e instituições. O certo é que, com ou sem murmúrios, o Estado vai fazendo de tudo para cobrar os impostos de que sobrevive e, os concessionários das estradas com portagens, também, vão cobrando tarifas aos utilizadores com a promessa de oferecer qualidade e segurança na rodovia… O problema, neste caso, começa quando o utilizador paga, mas não encontra a qualidade, segurança e comodidade prometidas pelo operador! Por exemplo, não é compreensível que, com tantos sinais de deterioração das condições de segurança na Estrada Circular, o operador não tenha, até aqui, dado sinais de alguma intenção de corrigir os problemas que se avolumam a cada dia, a exemplo da desordem provocada pelos trabalhadores contratados para varrer a rodovia, em plenas horas de pico de trânsito! A impressão com que se fica é de que aqueles cidadãos não recebem nenhuma indução antes de se fazerem à via, com vassouras, acabando por posicionar os seus carrinhos de mão ou por colocar seus cones de sinalização sem pensar nas limitações que causam ao trânsito, ou até no perigo que acabam por criar para si e para os condutores. Habituados a esta anarquia, alguns destes trabalhadores já se comportam com alguma arrogância. Para testemunhar estas e outras enormidades, basta percorrer a Estrada Circular… A questão que não quer calar é: afinal de quem foi a ideia de mandar varrer a estrada só nas horas de ponta? Outra monstruosidade que cresce e se reinventa a cada dia nesta rodovia é a arrogância com que os “chapeiros” vão assumindo que podem parar (até estacionar!) no interior das rotundas, tanto para embarcar ou desembarcar passageiros, ou até para esvaziar o conteúdo das marmitas que levam de casa, com toda a calma do mundo, e completamente alheios à confusão que causam no trânsito. Pelos vistos, a Polícia que amiúde se posiciona naquelas rotundas, não tem autoridade sobre os “chapeiros” que, “na maior cara de pau”, vão fazendo o que bem lhes apetecer, enquanto os agentes se entretêm com os seus telemóveis… Com tanto instinto selvagem a destacar-se no comportamento dos “chapeiros” nas rotundas, não será que está na hora de a concessionária da via investir em medidas de mitigação à altura? Já se pensou, por exemplo, em pontes nas rotundas de Albasine e na chamada “primeira rotunda”, para fazer face ao tráfego que cresce contaminado pela indisciplina dos “chapeiros”? Já pensou, a concessionária, em colocar barreiras de protecção, em betão, para impedir o acesso de pessoas ao interior das rotundas e, consequentemente, que os “chapeiros” usem aquela área para embarque e desembarque de passageiros? Provavelmente a concessionária dirá que não tem fundos para tais investimentos, mas fica difícil aceitar essa justificação para quem paga pela utilização da via, e se sujeita a situações humilhantes. Já imaginaram, os gestores da concessionária da Estrada Circular, o que significa para um mortal, levar três horas para viajar da Costa do Sol até Txumene, duas das quais só para vencer bagunça sistematicamente instalada da “primeira rotunda”? Assim também não dá!
O Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) prevê temperaturas elevadas e ocorrência de trovoadas acompanhadas de chuva em várias regiões de Moçambique, esta terça-feira, 10 de Fevereiro de 2026.
Um agente da Polícia da República de Moçambique (PRM), de 28 anos de idade, perdeu a vida, este domingo, no Hospital 1.º de Maio, na cidade de Nampula, enquanto se encontrava em serviço.
Manica, Moçambique – O Secretário de Estado na província de Manica condenou publicamente o atentado contra o jornalista Carlitos Cadangue, da STV, classificando o ataque como um acto inaceitável e um acontecimento macabro que colocou em risco a vida do profissional da comunicação social e do seu filho, que seguia na mesma viatura no momento da agressão.
A Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) apelou, hoje, aos empresários e comerciantes das cidades e vilas afectadas pelas cheias para que ajam com maior prudência na remoção de produtos deteriorados, de modo a salvaguardar a saúde pública. Em comunicado, a CTA manifesta preocupação com a forma como alguns produtos já putrefactos têm sido colocados nos passeios, em frente de estabelecimentos comerciais, situação que expõe a população ao risco de consumo de produtos impróprios e à proliferação de doenças. A organização recomenda que os produtos e derivados deteriorados sejam acondicionados em sacos plásticos pretos, devidamente amarrados, para evitar que sejam recolhidos por populares. Segundo a CTA, esta medida visa garantir que os resíduos sejam posteriormente recolhidos de forma segura pelos camiões do Conselho Municipal da Cidade de Xai-Xai ou por operadores privados destacados para o efeito. A CTA apela ainda à colaboração dos comerciantes no processo de carregamento dos sacos, sublinhando que, sempre que possível, os próprios empresários podem encaminhar os resíduos directamente para a lixeira. No entanto, a confederação considera que a deposição em lixeiras não constitui uma solução definitiva, defendendo a criação urgente de condições para a incineração dos produtos deteriorados. “Há o risco de esses produtos regressarem às famílias a partir das lixeiras, o que pode desencadear surtos de doenças”, alerta a CTA.
As autoridades sanitárias no distrito de Quelimane superaram em mais de vinte mil a meta inicialmente projectada de imunização contra a cólera. O “Notícias Online” apurou há instantes, junto do médico-chefe provincial da Zambézia, Isaías Marcos, que o plano inicial era de vacinar 440 mil pessoas de todas as idades. Mas no final da campanha, que terminou ontem, 460 mil pessoas tomaram a vacina. Solicitado a fazer o balanço da campanha, Isaías Marcos disse que a primeira fase decorreu sem sobressaltos, uma vez que foram proporcionadas as melhores condições de logística e houve adesão acima das projecções. Convidou a todos a voltarem a aderir a segunda fase, que terá lugar dentro de 15 dias. Neste momento, as autoridades sanitárias estão a intensificar a distribuição de purificadores de água nos distritos de Morrumbala e Maganja da Costa, devido à deterioração das condições de higiene provocadas pelas chuvas. Em Pinda, Morrumbala, apenas encontra-se internado um doente padecendo da doença.
O músico ganense Ebo Taylor, uma força definitiva por trás do gênero highlife, morreu aos 90 anos.
Seu filho Kweku Taylor anunciou a notícia no domingo: “O mundo perdeu um gigante. Um colosso da música africana. Ebo Taylor faleceu ontem; um dia após o lançamento do festival de música Ebo Taylor e exatamente um mês após seu 90º aniversário, deixando para trás um legado artístico incomparável. Pai, sua luz nunca se apagará.”
Um porta-voz do presidente do Gana disse ao programa Newsday da BBC que Taylor seria “lembrado como um dos nossos maiores músicos de sempre… um homem que se esforçou para colocar a música do Gana no mapa global numa altura em que outros géneros musicais eram proeminentes”.
Uma entrevista recente no site de música Passion of the Weiss saudou Taylor como “o maior guitarrista rítmico da história… com total originalidade, ele incorporou as diversas tradições rítmicas dos Ga, Ewe, Dagomba e do seu próprio povo Akan nas suas composições”.
Taylor nasceu Deroy Taylor na Costa do Cabo, em Gana, em 6 de janeiro de 1936. Ele começou a tocar piano aos seis anos de idade, seus gostos foram moldados pela música americana e inglesa, em parte porque Gana era uma colônia britânica na época.
Crescendo durante o florescimento do highlife, ele mudou para a guitarra enquanto estava na faculdade e posteriormente se juntou aos Stargazers – cujos membros Teddy Osei e Sol Amarfio formariam mais tarde a banda de afro-rock baseada no Reino Unido Osibisa – e uma sucessão de outras bandas. Ele se tornou conhecido por sua rara adoção tanto do highlife – em grande parte tocado no modo maior – quanto do Afrobeat, que se concentra nos modos menores.
Taylor no festival Womad 2011. Fotografia: C Brandon/Redferns
Na Eric Gilder School of Music, em Londres, no início dos anos 1960, Taylor estudou Dvořák e citou a complexidade da música do compositor checo como uma influência para a sua. Mas ele também disse que aprendeu mais fora da sala de aula, acompanhando bandas, participando de jams de jazz e highlife, e conhecendo artistas como os Beatles e os Rolling Stones.
Na época, o músico nigeriano Fela Kuti estudava no Trinity College, na capital, e os dois se tornaram amigos, unindo-se por um interesse comum pelo highlife e muitas vezes tocando juntos. “Também tínhamos o desejo de nos tornarmos um Miles Davis, um Charlie Christian ou um Kenny Burrell”, disse Taylor ao Post Genre em 2025. “Então tínhamos o mesmo humor… Ele era uma pessoa tão brincalhona e animada”.
Os dois músicos se tornaram inovadores de gênero. Em 2014, Taylor disse à BBC que “com o advento de James Brown e da música funk, houve a oportunidade de desenvolver a música highlife. Fela trabalhou muito introduzindo o funk na música iorubá, enquanto comparativamente eu fiz quase a mesma coisa em Gana”.
Taylor atribuiu a Kuti o incentivo a escrever música distintamente africana e combinou a influência de Dvořák e Davis com um forte sentido das suas próprias tradições musicais, tanto do Gana como da sua avó maliana. “Acredito que é importante que a música progrida, caso contrário torna-se apenas algo para museus, mas é preciso conhecer a sua cultura tradicional antes de começar a acrescentar coisas a ela”, disse ele à Vinyl Factory em 2018.
Depois de formar a Black Star Highlife Band em Londres em 1964, ele retornou ao seu país natal um ano depois e formou bandas como a New Broadway Dance Band e os Blue Monks, que contaram com a participação, por um tempo, do colega músico ganês Pat Thomas – agora membro do أحمد [Ahmed].
Taylor se apresentando na Espanha em 2012. Fotografia: Esteban Martinena Guerrero/EPA/Shutterstock
No início dos anos 70, Taylor trabalhou como guitarrista, arranjador e produtor interno no selo Essiebons, dirigido por Dick Essilfie-Bondzie, um ex-funcionário público que se tornou empresário musical e lançou o que uma reedição de 2021 chamou de “o melhor do highlife moderno”. Taylor gravou vários de seus próprios álbuns para a gravadora e trabalhou em discos de artistas como Thomas e Gyedu-Blay Ambolley.
Na década de 80, Taylor deixou de liderar suas próprias bandas para trabalhar em discos de outros artistas. Na década de 2000, lecionou música na Universidade de Gana.
Seu primeiro álbum lançado internacionalmente, Love and Death, foi lançado em 2010. A música de Taylor se tornou mais amplamente divulgada graças ao aumento do interesse internacional pelo highlife, que foi objeto de muitas reedições e compilações, e foi sampleado por artistas como Usher, Black Eyed Peas, Kelly Rowland, Jidenna e Vic Mensa. Love and Death gerou uma renovada atividade para Taylor, que incluiu os álbuns Appia Kwa Bridge (2012) e Yen Ara (2018), e turnês internacionais.
Em 2018, Taylor sofreu um derrame que prejudicou sua capacidade de falar inglês. Para o álbum Ebo Taylor JID022 de 2025, uma colaboração com a organização Jazz Is Dead de Ali Shaheed Muhammad e Adrian Younge, seu filho Henry facilitou a comunicação entre os três músicos – e ele mesmo tocou guitarra no projeto. Taylor também brincava frequentemente com seu filho Roy.
Aos 90 anos, ele não conseguia mais tocar violão. Ele viveu grande parte de sua vida, inclusive seus últimos anos, na pequena cidade costeira de Saltpond, onde era conhecido localmente como Tio Ebo. Ele recebeu vários prêmios pelo conjunto de sua obra de organizações que representam a música ganense e highlife.
O cantor e rapper contemporâneo Black Sherif prestou homenagem a Taylor: “Perdemos uma lenda cuja contribuição para a música criou repercussões em todo o mundo. Sinto-me consolado pelo fato de ter testemunhado a grandeza na forma de arte do tio Ebo Taylor. Descanse no poder!”
Um vídeo agora excluído gerado por inteligência artificial e compartilhado pelo partido nacionalista hindu indiano Bharatiya Janata Party (BJP) no estado de Assam, lar de mais de 12 milhões de muçulmanos, foi amplamente condenado depois de mostrar o ministro-chefe do estado do nordeste, Himanta Biswa Sarma, parecendo atirar em muçulmanos.
O clipe de 17 segundos compartilhado no X e intitulado “tiro à queima-roupa” circulou amplamente nas redes sociais no sábado antes de ser removido após indignação pública e críticas de políticos da oposição.
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O vídeo parecia combinar imagens originais de Sarma manuseando um rifle e imagens geradas por IA que o mostravam atirando em dois homens muçulmanos sob o título “No Mercy”. Sarma foi acusado de realizar campanhas xenófobas contra os muçulmanos, que formam um terço da população do estadoantes das eleições estaduais previstas para março ou abril.
O vídeo também incluía imagens de Sarma vestido de cowboy e apontando uma pistola, sobrepostas a textos como “Estrangeiro livre Assam”.
A unidade Assam BJP acusada de produzir retórica anti-muçulmana não comentou oficialmente.
“Não há comentários. Foi excluído. Não há nada a dizer”, disse Ranjib Kumar Sarma, líder local do BJP em Assam, ao Indian Express.
O ministro-chefe intensificou recentemente a sua retórica contra os muçulmanos, particularmente contra os muçulmanos de origem bengali em Assam, ligando-os ao crime e às mudanças demográficas.
No mês passado, ele apelou aos residentes de Assam para darem “momentos difíceis” aos “muçulmanos Miya”, um termo depreciativo para os muçulmanos de língua bengali.
“Mesmo pequenos atos, como pagar menos em um riquixá. Se pedirem 5 rúpias [6 United States cents]dê 4 rúpias [4 cents]. Eles só deixarão Assam se enfrentarem dificuldades”, disse ele.
Apenas os territórios administrados pelo governo federal da Caxemira administrada pela Índia, no norte, e as ilhas Lakshadweep, no Mar Arábico, têm uma percentagem muçulmana da população mais elevada do que Assam.
‘Sem decência básica’
Aman Wadud, um líder do partido de oposição Congresso Nacional Indiano baseado em Assam, classificou o vídeo como “profundamente perturbador”.
“O BJP provou repetidamente que não tem absolutamente nenhum respeito pela lei ou mesmo pela decência básica”, disse ele à Al Jazeera.
“Isso também mostra o desespero do BJP. Eles estão perdendo o controle em Assam. O povo sábio de Assam está pronto para derrotar esta política de ódio e divisão”, acrescentou.
Num comunicado, o Congresso disse que o vídeo “equivale a um apelo à violência em massa e ao genocídio”.
O líder do Congresso Trinamool da Índia, Mahua Moitra, instou os juízes da Suprema Corte e do Tribunal Superior da Índia a tomarem conhecimento do vídeo de Sarma, perguntando em uma postagem no X “o que mais esse homem precisa fazer” para o judiciário “acordar”.
Em Setembro, o BJP em Assam publicou outro vídeo gerado por IA intitulado “Assam sem BJP”, retratando o estado assumido pelos muçulmanos, a quem pinta como “imigrantes ilegais”.
O aumento da intolerância anti-muçulmana em Assam surge no contexto de uma guerra cultural do BJP contra os muçulmanos, que representam 14 por cento dos 1,4 mil milhões de habitantes da Índia.
De acordo com a ideologia majoritária hindu, que orienta o BJP no poder, os muçulmanos são considerado estranhos. Os requerentes de asilo muçulmanos e os refugiados do Bangladesh e de Mianmar são particularmente considerados “infiltrados”. A Índia também alterou as suas leis de cidadania em 2019, tornando a fé uma base para a aquisição de cidadania na nação oficialmente secular. Os muçulmanos foram excluídos da aplicação.
Desde a eleição do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, em 2014, dezenas de muçulmanos foram linchados sob suspeita de consumir carne bovina ou de transportar gado, coisas consideradas sagradas por alguns hindus. Os muçulmanos enfrentam discriminação no emprego e na educação há décadas, mas sob o governo do BJP, a sua situação piorou à medida que os partidos nacionalistas hindus transformaram as leis contra os muçulmanos em armas.
Grupos de direitos humanos disseram discurso de ódio e violência contra os muçulmanos explodiram nos últimos anos.
No mês passado, uma investigação realizada pelo India Hate Lab, um projecto do Centro para o Estudo do Ódio Organizado, com sede em Washington, DC, descobriu que o país registou 1.318 eventos de discurso de ódio em 2025, uma média de mais de três por dia.
Pelo menos 98 por cento dos eventos tiveram como alvo os muçulmanos e explicitamente em 1.156 casos, acrescentou o relatório.
O próprio Modi foi acusado de usar linguagem inflamada sobre os muçulmanos para gerar medo entre os eleitores hindus. A Human Rights Watch disse em um relatório publicou em agosto de 2024 que Modi e vários líderes partidários “frequentemente usaram discurso de ódio contra muçulmanos e outras minorias, incitando a discriminação, a hostilidade e a violência” durante a campanha para as eleições gerais de 2024.
Modi o que negado um visto dos EUA por ligações com um massacre antimuçulmano em 2002 no estado de Gujarat, enquanto ele servia como ministro-chefe. Mais de 1.000 pessoas foram mortas, a maioria delas muçulmanas, numa das piores violências anti-muçulmanas desde a independência da Índia do domínio colonial britânico em 1947. Desde que se tornou primeiro-ministro, no entanto, Modi visitou os EUA inúmeras vezes.
Daca, Bangladesh –Na quarta-feira à noite, em Dhaka, Shafiqur Rahman, o emir (chefe) do Bangladesh Jamaat-e-Islami, revelou um ambicioso manifesto eleitoral. Uma promessa fundamental: se o seu partido vencer as eleições de 12 de Fevereiro no país, isso abriria caminho para que o Bangladesh quadruplicasse o seu produto interno bruto (PIB) para 2 biliões de dólares até 2040.
Dirigindo-se a políticos e diplomatas, Rahman, de 67 anos, prometeu investimento na agricultura, indústria transformadora, tecnologia de informação, educação e saúde impulsionada pela tecnologia, juntamente com maior investimento estrangeiro e aumento da despesa pública.
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Os economistas em Dhaka levantaram dúvidas sobre se é possível financiar promessas abrangentes, descrevendo o manifesto como pesado em slogans, mas pobre em detalhes. Mas para a liderança do Jamaat, o manifesto tem menos a ver com aritmética fiscal do que com sinalizar intenções, dizem os analistas.
Durante anos, os críticos tentaram retratar o Jamaat, o maior partido islâmico do Bangladesh, como movido demasiado pela doutrina religiosa para ser capaz de governar uma população jovem, diversificada e virada para o futuro. O manifesto, pelo contrário, apresenta um partido há muito excluído do poder como uma alternativa credível – e como uma força que não vê contradição entre as suas fundações religiosas e o futuro moderno que os bangladeshianos aspiram.
Seu público também estava dizendo.
Até recentemente, as elites empresariais e os diplomatas estrangeiros do Bangladesh mantinham distância da Jamaat ou interagiam com ela de forma discreta. Agora, eles estão fazendo isso abertamente.
Ao longo dos últimos meses, diplomatas europeus, ocidentais e até indianos procuraram encontrar-se com Rahman, uma figura que, até há pouco tempo, era vista por muitos a nível internacional como quase politicamente intocável.
Para um líder cujo partido foi banido duas vezes, inclusive pela administração da primeira-ministra destituída Sheikh Hasina, as próximas eleições levantam uma questão que poucos ousariam fazer há um ano: poderá Shafiqur Rahman tornar-se o próximo primeiro-ministro do Bangladesh?
Rahman posa para uma fotografia após entrevista à agência de notícias Reuters em Dhaka, em 31 de dezembro de 2025 [Kazi Salahuddin/Reuters]
‘Vou lutar pelo povo’
A mudança na forma como Jamaat e o seu líder são vistos tem a ver, pelo menos em parte, com o vazio político que se abriu no Bangladesh.
A revolta de julho de 2024 que depôs Sheikh Hasina fez mais do que pôr fim ao seu longo governo. Subverteu a ordem política do país, esvaziando o duopólio familiar que durante décadas definiu a política do Bangladesh – a rivalidade entre a Liga Awami de Hasina e o Partido Nacionalista do Bangladesh (BNP).
Com a Liga Awami efetivamente excluída do campo político e o BNP sendo o único grande partido que restou de pé, surgiu um vácuo. Muitos inicialmente presumiram que seria preenchido pelo Partido Nacional do Cidadão (NCP), liderado por estudantes. Em vez disso, o Jamaat – há muito empurrado para as margens – moveu-se para ocupar o espaço.
À medida que o Bangladesh se encaminha para eleições de alto risco em menos de duas semanas, o Jamaat emergiu agora como uma das duas forças políticas mais proeminentes do país. Algumas sondagens pré-eleitorais colocam-no agora em concorrência directa com o BNP.
No centro dessa transformação está Rahman, segundo Ahsanul Mahboob Zubair, secretário-geral adjunto de Jamaat e associado de longa data do chefe do partido.
Zubair, que trabalhou em estreita colaboração com Rahman quando este liderou o Jamaat na região de Sylhet, disse que o ressurgimento é o resultado de anos de trabalho social de base e de sobrevivência política sob repressão.
Rahman, um ex-médico do governo de fala mansa, assumiu o cargo de chefe do Jamaat em 2019, numa altura em que o partido foi proibido no governo de Hasina. Em dezembro de 2022, ele foi preso no meio da noite sob a acusação de apoiar a militância e só foi libertado 15 meses depois, quando conseguiu fiança.
Em março de 2025, meses após o protesto liderado por estudantes ter derrubado Hasina e um governo interino sob o prêmio Nobel Muhammad Yunus ter tomado posse, o nome de Rahman foi retirado da lista de acusados no caso.
Desde então, suas aparições públicas emocionais e cuidadosamente calibradas atraíram grande atenção.
Num grande comício em Dhaka, em Julho passado, Rahman desmaiou duas vezes no palco devido a uma doença relacionada com o calor, mas regressou para terminar o seu discurso, desafiando os conselhos dos médicos.
“Enquanto Alá me conceder a vida, lutarei pelo povo”, disse ele à multidão, mal sentado no palco, apoiado pelos médicos. “Se Jamaat for eleito, seremos servos, não proprietários. Nenhum ministro aceitará lotes ou carros isentos de impostos. Não haverá extorsão, nem corrupção. Quero dizer claramente aos jovens: estamos convosco.”
Rahman agita a bandeira do partido durante uma campanha eleitoral em Dhaka, 22 de janeiro de 2026 [Mahmud Hossain Opu/AP Photo]
Reinventando a imagem de Jamaat
Os apoiantes descrevem Shafiqur Rahman como acessível e moralmente fundamentado – um líder que prefere zonas de desastre a salas de estar e que projecta calma num país exausto pelo confronto.
Agora em seu terceiro mandato como chefe, Rahman detém autoridade firme dentro do partido.
“Ele é um homem bom e piedoso. Todos no partido confiam nele”, disse Lokman Hossain, um apoiante do Jamaat em Dhaka. Ele disse que durante o último ano e meio, o partido alcançou muito mais pessoas do que antes, com o apelo de Rahman para além da base tradicional de Jamaat desempenhando um papel central.
O desafio de Rahman, contudo, já não é puramente eleitoral – é de reputação.
À medida que novos apoiantes se aproximam do Jamaat, ele tenta reformular a forma como o partido é visto: menos como uma força islâmica definida pela doutrina e pela história, e mais como um veículo para uma governação, disciplina e mudança limpas.
Se esta reinvenção é substantiva ou meramente cosmética, definirá tanto a liderança de Rahman como o futuro de Jamaat, dizem os analistas.
Qualquer tentativa de reformular a imagem pública do Jamaat, no entanto, esbarra no legado não resolvido de 1971. Durante décadas, o papel do partido durante a guerra de independência do Bangladesh – quando se aliou ao Paquistão – e os subsequentes julgamentos e execuções de vários líderes seniores moldaram as percepções do Jamaat no país e no estrangeiro.
Rahman abordou essa história com cautela. Ele evitou confissões detalhadas, mas recentemente reconheceu o que chama de “erros passados” do Jamaat, pedindo perdão se o partido causou danos.
A linguagem marca uma mudança sutil em relação à negação total, mas não chega a nomear ações ou responsabilidades específicas. Os seus apoiantes dizem que isto reflecte mais realismo político do que evasão – uma tentativa de levar o partido para além do seu capítulo negro. Os críticos, por outro lado, vêem a ambiguidade como deliberada, argumentando que ela suaviza a imagem do Jamaat sem confrontar a substância do seu passado.
“Ele sabe quais foram esses erros”, disse Saleh Uddin Ahmed, um analista político e académico do Bangladesh radicado nos Estados Unidos. “Mas declará-los explicitamente desestabilizaria a sua liderança dentro do partido.”
Ahmed, no entanto, considera Rahman mais moderado do que os anteriores líderes do Jamaat, notando a sua relativa disponibilidade para discutir questões históricas não resolvidas e abordar questões como os direitos das mulheres – temas que o partido há muito evitava. “Essa abertura também está acontecendo devido ao maior escrutínio público e da mídia”, disse Ahmed. “As pessoas estão fazendo perguntas agora e Jamaat tem que responder.”
O esforço do Jamaat para alcançar eleitores para além da sua base tradicional e tranquilizar o público estrangeiro, mantendo ao mesmo tempo a lealdade dos seus apoiantes conservadores, criou uma tensão persistente – que muitas vezes resultou em mensagens duplas.
Esse ato de equilíbrio ficou evidente em declarações públicas de líderes seniores. Abdullah Md Taher, um dos assessores mais próximos de Rahman, em entrevista à Al Jazeera, disse que o Jamaat é um partido moderado, acrescentando que não imporia ou aderiria estritamente à lei islâmica.
No entanto, ao dirigir-se aos apoiantes conservadores, o partido continua a enfatizar a sua identidade islâmica, com alguns apoiantes a encorajar votos no Jamaat como um acto de mérito religioso – uma prática que o rival BNP criticou como o uso indevido do sentimento religioso.
A estratégia parece ter ajudado o Jamaat a reentrar em conversações políticas que antes lhe estavam fechadas. Ao mesmo tempo, aumentou as dúvidas sobre até que ponto Rahman está disposto – ou é capaz – de ir na reinterpretação do passado e da ideologia do partido enquanto corteja um eleitorado mais vasto.
Esses limites são mais visíveis na posição do Jamaat em relação às mulheres e à liderança. Elas entraram em evidência durante a sua entrevista à Al Jazeera, na qual Shafiqur Rahman disse que não era possível para uma mulher ocupar a posição de topo do partido – uma observação que reacendeu críticas de longa data à política de género do Jamaat, apesar das suas tentativas de projectar uma imagem mais inclusiva.
“Alá criou todos com uma natureza distinta. Um homem não pode ter um filho ou amamentar”, disse Rahman. “Existem limitações físicas que não podem ser negadas. Quando uma mãe dá à luz, como ela cumprirá essas responsabilidades? Não é possível.”
Os críticos argumentam que a postura expõe os limites das reivindicações de moderação do Jamaat.
Mubashar Hasan, pesquisadora adjunta da Iniciativa de Pesquisa Humanitária e de Desenvolvimento da Western Sydney University, na Austrália, e autora de Narratives of Bangladesh, também questionou a cultura interna do Jamaat, observando que mesmo as líderes femininas que endossam publicamente tais opiniões operam dentro de uma hierarquia dominada pelos homens. Ele referia-se ao grande número de apoiantes e membros do partido, incluindo mulheres no Majlis-e-Shura, o mais alto órgão de decisão. “Isso reflete uma estrutura onde as mulheres seguem o que os homens dizem naquele partido”, disse ele.
A crítica tem um peso especial dado o movimento que ajudou a reabrir o espaço político para o próprio Jamaat. A revolta de Julho de 2024 contra Hasina, observam os analistas, contou com uma ampla participação de mulheres, muitas vezes na linha da frente do protesto. “As mulheres faziam parte desse movimento tanto quanto os homens, se não mais”, disse Hasan. “Malhá-los agora dá ao Jamaat uma perspectiva profundamente problemática.”
Os historiadores políticos argumentam que esta não é uma contradição nova, mas sim uma contradição de longa data. Desde que disputou as eleições sob o seu próprio símbolo em 1986, o Jamaat nunca apresentou uma candidata mulher a um assento parlamentar geral, baseando-se, em vez disso, em quotas reservadas.
“Esta não é uma posição temporária ou um lapso táctico”, disse o historiador político e autor Mohiuddin Ahmad. “Reflecte a estrutura ideológica do partido, e essa estrutura não mudou fundamentalmente.”
Rahman (à esquerda) com o chefe do governo interino de Bangladesh, Muhammad Yunus, na inauguração de um museu para comemorar a revolta estudantil que derrubou Hasina, em 20 de janeiro de 2026 [Mahmud Hossain Opu/AP Photo]
O ‘avô’ expandindo o alcance do Jamaat
No entanto, entre os apoiantes do Jamaat – especialmente os mais jovens – a questão é muitas vezes filtrada pela lealdade ao próprio Rahman e não pela doutrina.
Durante a sua recente campanha nacional, é frequente ouvir jovens apoiantes chamarem Shafiqur Rahman de “dadu” – avô. De barba branca, fala mansa e visivelmente atento aos apoiadores, Rahman se encaixa na imagem.
“Ele se conecta com os jovens por meio de suas palavras”, disse Abdullah Al Maruf, estudante de direito da Geração Z de Chattogram e apoiador do Jamaat. “Há algo no seu trabalho recente que parece a relação entre um avô e os seus netos. Enquanto os líderes do BNP muitas vezes menosprezam os jovens, Shafiqur fala-lhes com respeito.”
Maruf acrescentou que o apelo de Rahman vai além da base tradicional de Jamaat. “Fora do círculo habitual do Jamaat, ele é mais popular do que os líderes anteriores do Jamaat”, disse ele.
Zubair, secretário-geral adjunto do Jamaat, descreveu o alcance do partido para além dos eleitores tradicionais – como a decisão de nomear um candidato hindu – não como uma medida táctica, mas enraizada no quadro constitucional do Jamaat e não na conveniência política.
“A nossa constituição permite que qualquer bangladeshiano, independentemente da religião, faça parte do partido se apoiar as nossas políticas políticas, económicas e sociais”, disse ele. “Apoiar a nossa doutrina religiosa não é um requisito para a participação política.”
Os líderes do Jamaat argumentam que a medida reflecte um esforço mais amplo para mudar a imagem pública do partido – de uma imagem definida principalmente pela teologia para uma imagem centrada na governação e na responsabilização. “Estamos enfatizando políticas, disciplina e serviço público livres de corrupção”, disse Zubair. “As pessoas viram os nossos líderes apoiá-las durante as cheias, durante a COVID e durante a revolta de julho. É por isso que o apoio está a crescer.”
Krishna Nandi, o candidato hindu do partido da cidade de Khulna, concorda. “Quando as famílias caem na pobreza, as redes de assistência social ligadas ao Jamaat intervêm sem perguntar sobre religião ou lealdade política. Esta cultura de serviço explica por que muitos cidadãos vêem o Jamaat não como um partido de slogans, mas como um partido de disciplina, estrutura e responsabilidade”, Nandi escreveu para a Al Jazeera.
O alcance do Jamaat também se estendeu muito além do público doméstico. Zubair disse que a liderança do partido manteve reuniões com diplomatas indianos em Dhaka que fizeram uma visita de cortesia a Shafiqur quando este estava doente. Figuras do Jamaat foram convidadas para a recepção do 77º Dia da República da Índia no Alto Comissariado Indiano no mês passado – um passo sem precedentes.
Diplomatas europeus e ocidentais, acrescentou, também procuraram compromissos com Rahman nos últimos meses. Essa mudança foi refletida em Washington. Numa gravação de áudio divulgada pelo The Washington Post, um diplomata dos EUA foi citado como tendo dito que as autoridades americanas queriam “ser amigos” do Jamaat, perguntando aos jornalistas se membros da influente ala estudantil do partido estariam dispostos a aparecer nos seus programas.
À medida que o envolvimento internacional do Jamaat se expande – e à medida que emerge como uma força eleitoral séria ao lado do líder BNP – muitos apoiantes em geral expressam confiança na liderança de Rahman.
“Ele é um patriota”, disse Abul Kalam, eleitor do distrito eleitoral de Rahman, em Dhaka. “Seja como primeiro-ministro ou como líder da oposição, ele nos liderará bem.”
O que vem a seguir para o partido não está claro. Mas os analistas dizem que, independentemente do resultado das eleições, a estatura de Rahman dentro do Jamaat – e fora dele, no Bangladesh – parece resoluta.
“Shafiqur Rahman é um político experiente e aparece frequentemente nas manchetes”, disse Ahmad, o historiador político. “O seu pensamento político ainda não está totalmente claro, mas o seu domínio sobre o partido é evidente.”
A agência de migração da ONU disse que 53 pessoas morreram ou desapareceram depois que um barco virou no Mar Mediterrâneo, na costa da Líbia. Apenas dois sobreviventes foram resgatados.
A Organização Internacional para as Migrações disse que o barco virou ao norte de Zuwara na sexta-feira.
“Apenas duas mulheres nigerianas foram resgatadas durante uma operação de busca e salvamento levada a cabo pelas autoridades líbias”, afirmou a OIM num comunicado, acrescentando que uma das sobreviventes disse ter perdido o marido e a outra disse ter “perdido os seus dois bebés na tragédia”.
A OIM disse que suas equipes forneceram cuidados médicos de emergência aos dois sobreviventes.
“De acordo com relatos de sobreviventes, o barco que transportava migrantes e refugiados de nacionalidades africanas partiu de Al-Zawiya, na Líbia, por volta das 23h00 do dia 5 de Fevereiro. Aproximadamente seis horas depois, virou após entrar na água”, disse a agência.
“A OIM lamenta a perda de vidas em mais um incidente mortal ao longo da rota central do Mediterrâneo.”
A agência com sede em Genebra disse que as redes de tráfico e contrabando exploram migrantes ao longo da rota do norte de África para o sul da Europa, lucrando com travessias perigosas em barcos impróprios para navegar, ao mesmo tempo que expõem as pessoas a “graves abusos”.
Apelou a uma cooperação internacional mais forte para enfrentar as redes, juntamente com vias de migração seguras e regulares para reduzir riscos e salvar vidas.
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