Hora Certa News | Reportagem Especial
Num mundo cada vez mais conectado, o passaporte é muito mais do que um simples documento de viagem: é um reflexo do peso diplomático e económico de um país. Ter um passaporte “forte” significa liberdade de movimento, acesso a oportunidades e até prestígio internacional. No entanto, quando o assunto é o Passaporte Moçambicano, a realidade é outra: o documento ainda carrega restrições que limitam o alcance do cidadão comum, tanto em África como além-mar.
Segundo o Henley Passport Index 2025, que classifica os passaportes mais poderosos do mundo com base no número de países acessíveis sem visto, Moçambique ocupa a 81ª posição, oferecendo acesso livre ou com visto à chegada em cerca de 60 países. Pode parecer razoável, mas quando comparado com os líderes do continente — Seychelles (151 destinos), Maurício (148) e África do Sul (108) — a diferença é gritante.
O passaporte moçambicano permite viajar sem necessidade de visto prévio para alguns países africanos e asiáticos, incluindo África do Sul, Tanzânia, Malawi, Quénia, Botswana, Zâmbia, Indonésia, Irão e Singapura, além de ilhas do Índico como as Comores.
Contudo, quando o destino é Europa, América do Norte, Reino Unido ou Austrália, o titular do passaporte moçambicano enfrenta um percurso burocrático longo e caro — muitas vezes com exigência de entrevistas, comprovativos bancários e reservas de hotel.
Um levantamento feito pela Hora Certa News junto de viajantes e agentes de turismo mostra que o tempo médio de obtenção de um visto europeu pode ultrapassar 30 dias, enquanto para os Estados Unidos pode chegar a 60 dias ou mais.
“Há moçambicanos com projectos académicos e profissionais que desistem simplesmente porque não conseguem visto a tempo”, revela um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, sob anonimato.
Especialistas consultados por este jornal explicam que o poder de um passaporte está directamente ligado à força diplomática e económica do país que o emite.
“Os países que oferecem maior mobilidade são geralmente aqueles com relações comerciais sólidas, estabilidade política e confiança internacional”, comenta o analista político Dr. Eusébio Jone, da Universidade Eduardo Mondlane.
Moçambique, apesar dos avanços em investimentos e turismo, ainda enfrenta percepções de risco migratório, o que leva muitas nações a manterem regras rígidas de entrada.
Nos bastidores, a diplomacia moçambicana tenta reverter esse cenário. Fontes do Ministério do Interior confirmaram que há negociações em curso para acordos bilaterais de isenção de vistos com países da Ásia e América Latina, o que pode aumentar a liberdade de movimento para cidadãos moçambicanos nos próximos anos.
Em África, o passaporte de Seychelles é o mais poderoso, permitindo entrada livre em 151 países, incluindo o espaço Schengen e o Reino Unido. Maurício e África do Sul completam o pódio.
Na base da lista africana estão Somália (37 destinos), Sudão do Sul (45) e República Democrática do Congo (49).
Moçambique encontra-se no meio da tabela, abaixo de Namíbia, Botswana e Gana, mas à frente de Angola (56) e Nigéria (45).
Para o economista Lourenço Dinis, o problema não é apenas o número de países acessíveis, mas o custo de obter o documento.
“O passaporte moçambicano custa entre 5.000 e 8.000 meticais, valor que representa um obstáculo para muitos cidadãos, especialmente quando o retorno prático é tão limitado. O poder de um passaporte não está apenas no carimbo, mas nas oportunidades que ele desbloqueia.”
Outro ponto crítico identificado pela investigação é o controlo interno da emissão e falsificação de passaportes.
Nos últimos anos, o Serviço Nacional de Migração (SENAMI) tem reforçado a segurança com novos modelos biométricos e sistemas digitais, tentando alinhar-se aos padrões da ICAO (Organização Internacional da Aviação Civil).
Ainda assim, casos de corrupção e emissão irregular persistem. “A falta de confiança internacional no sistema de emissão contribui para que o passaporte moçambicano tenha menos peso”, explica um antigo técnico de migração ouvido sob anonimato.
O futuro do passaporte moçambicano depende de três factores:
Fontes do Ministério do Interior confirmaram que está em estudo uma versão “e-passaporte” com chip integrado e autenticação digital, que deverá ser implementada gradualmente a partir de 2026. A meta é aumentar a mobilidade do cidadão moçambicano e facilitar a identificação em aeroportos internacionais.
Num continente em movimento, o passaporte é mais do que um documento: é uma medida silenciosa do prestígio de uma nação.
Moçambique já percorreu um longo caminho desde o passaporte verde dos anos 1990, mas continua longe de oferecer ao seu cidadão o direito de circular livremente pelo mundo.
Enquanto isso, os moçambicanos seguem a lutar — carimbo após carimbo — para provar o seu valor num mundo onde a mobilidade continua a ser um privilégio, não um direito.
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