Economia

Multinacionais aceleram corrida a energia, mineração e agricultura em Moçambique — oportunidade histórica ou repetição dos mesmos erros?

Eni, TotalEnergies, ExxonMobil, Syrah Resources, Kenmare e Globeleq disputam posições num país com 36 milhões de hectares de terra arável, reservas de gás entre as maiores do mundo e minerais críticos para a transição energética global. O que muda — desta vez — para as populações de Cabo Delgado, Nampula, Manica e Gaza?

Análise e Redacção   |   Fevereiro de 2026   |   Maputo

Moçambique volta a estar no centro das atenções das grandes potências económicas mundiais — e desta vez a pressão é simultânea em três frentes. Energia, mineração e agricultura concentram o apetite de multinacionais europeias, asiáticas e norte-americanas que se movem agora, num momento em que o país regista crescimento económico de apenas 0,5% em 2025 e uma dívida pública recorde de 1,07 biliões de meticais. A questão que divide economistas, ambientalistas e comunidades locais é antiga mas nunca tão urgente: estes investimentos vão transformar vidas — ou repetir o ciclo de enclave e exclusão que Moçambique já conheceu com o carvão, a madeira e os rubis?

A resposta depende menos dos discursos empresariais e mais da firmeza do Estado moçambicano na negociação, fiscalização e redistribuição de receitas.

I. Energia — Gás e Renováveis na Linha da Frente

GNL: 20 mil milhões de dólares em jogo

A Área 4, operada pela italiana Eni com parceiros como a chinesa CNPC, a sul-coreana KOGAS, a emiradense ADNOC e a moçambicana ENH, produz já mais de 7 MTPA (milhões de toneladas por ano) de gás natural liquefeito através do projecto Coral Sul — e prepara-se para expandir com o Coral North. Na Área 1, em Afungi, a TotalEnergies e a ExxonMobil têm um investimento estimado de cerca de 20 mil milhões de dólares parado desde os ataques de Palma em 2021. A retoma deste megaprojecto é, neste momento, uma das decisões económicas mais aguardadas do continente africano.

Por que razão uma empresa como a TotalEnergies — que opera em mais de 130 países — suspendeu operações em Moçambique e ainda não regressou? A resposta passa pela segurança em Cabo Delgado, mas também por uma negociação que envolve garantias estatais, seguro de risco político e condições de financiamento internacional que o governo moçambicano ainda está a fechar. A pressão para que este processo avance no segundo semestre de 2026 é crescente — e a Primeira-Ministra Benvinda Levi foi pessoalmente a Dubai, em Fevereiro, sublinhar que o gás moçambicano é ‘limpo e de muita qualidade’ para atrair investidores.

Para os habitantes de Cabo Delgado — uma das províncias mais pobres do país, onde mais de 62,9% da população vive abaixo da linha da pobreza — o regresso das operações petrolíferas é uma promessa que já foi feita antes. O que as comunidades exigem desta vez é diferente: emprego formal, fornecedores locais e escolas técnicas — não apenas estradas de acesso às plataformas de extracção.

Renováveis: o futuro que a Globeleq está a construir

Enquanto o GNL domina as manchetes, a transição energética tem outro actor em cena: a Globeleq avança com a primeira central eólica de Moçambique, em Namaacha, com 120 MW de capacidade, e com um projecto solar de 95 MW em Gaza. Para um país onde milhões de famílias ainda cozinham a carvão e dependem de geradores a gasóleo, estes números não são abstractos: representam a possibilidade de electrificação rural estável e tarifas de energia mais previsíveis no longo prazo.

II. Mineração — Grafite, Areias Pesadas e a Corrida aos Minerais Críticos

Em Balama, no Norte do país, a australiana Syrah Resources opera aquela que é considerada uma das maiores minas de grafite do mundo — com apoio financeiro da DFC, o braço de desenvolvimento dos Estados Unidos. Porquê a grafite? Porque é um mineral crítico para as baterias de veículos eléctricos, e Moçambique tem reservas que os EUA e a Europa precisam urgentemente de garantir para a sua transição energética. O país tem, neste caso, poder negocial real — se souber usá-lo.

Já em Moma, a irlandesa Kenmare Resources extrai areias pesadas desde 2007. Com quase duas décadas de operação, o balanço é misto: contribuições fiscais consistentes, mas críticas locais persistentes sobre reassentamentos e condições laborais. O que está agora em discussão — e urge resolver — é se o processamento destes minerais começa a ser feito dentro de Moçambique, criando valor acrescentado e empregos qualificados em vez de exportar matéria-prima bruta para ser transformada noutros países.

Moçambique já viveu ciclos de carvão, madeira, rubis e areias pesadas. A história mostra que riqueza mineral não garante desenvolvimento automático. A diferença, desta vez, está na firmeza com que o Estado negoceia.

III. Agricultura — A Base que Não Pode Ser Ignorada

Moçambique tem 36 milhões de hectares de terra arável — e ainda importa boa parte dos alimentos que consome. Este paradoxo não passou despercebido aos investidores internacionais. A Itália aposta nos Centros Agroalimentares em Manica, com histórico de projectos similares na Etiópia e África Ocidental. A Índia negoceia interesse em agro-indústria e exportação, com comércio bilateral que já ultrapassou os 800 milhões de dólares em 2024. A China mantém forte presença agrícola no continente. O Brasil, através da EMBRAPA, oferece transferência de tecnologia tropical — área onde tem experiência comprovada em vários países africanos.

Para o pequeno agricultor de Nampula ou de Manica, o que está em causa não é uma estatística de PIB agrícola — é se a chegada destas empresas vai integrar as famílias nas cadeias de valor ou empurrá-las para a margem das explorações. A janela para definir os termos desta integração está aberta agora, enquanto os contratos ainda estão a ser negociados.

IV. O Que Pode Mudar — E O Que Tem de Ser Exigido

Se os contratos forem transparentes e a fiscalização firme, os impactos podem ser estruturais e escalonados no tempo. No curto prazo: emprego local formal, programas de responsabilidade social e melhoria em estradas e logística. No médio prazo: escolas técnicas, cadeias de fornecimento nacionais e pequenas e médias empresas integradas nos projectos. No longo prazo: um fundo soberano sólido, redução da dependência da ajuda externa e industrialização efectiva — transformando Cabo Delgado, Nampula, Manica e Gaza em polos reais de desenvolvimento e não em zonas de extracção.

O futuro depende de três factores que o Estado moçambicano tem de impor agora, enquanto o interesse externo está no pico: transparência contratual, fiscalização ambiental rigorosa e redistribuição efectiva das receitas. Sem estes três pilares, repete-se o modelo de enclave extractivo. Com eles, Moçambique tem — pela primeira vez em décadas — condições objectivas para converter riqueza natural em desenvolvimento humano duradouro.

A pergunta não é se os investidores vêm. Eles já chegaram. A pergunta é quem negoceia os termos — e com que firmeza.

horacertanews

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