Opinião

Moçambique produz maçã — e estamos a ignorar um mercado milionário

Fala-se de gás.
Fala-se de carvão.
Fala-se de rubis.

Mas quase ninguém fala de maçã.

E devia falar.

Moçambique importa toneladas de maçã todos os anos — principalmente da África do Sul. O mercado existe. A procura é estável. O consumo é transversal: famílias, escolas, supermercados, hotéis, restauração.

Agora a pergunta incómoda:

Por que razão continuamos dependentes da importação se existem zonas no País com potencial real de produção?

A realidade económica: importamos o que poderíamos produzir

A maçã não é um produto exótico no nosso mercado. É um bem de consumo regular.

  • Está presente nas grandes superfícies.
  • Está presente nas cantinas escolares.
  • Está presente nos mercados formais e informais.
  • Está integrada no cabaz alimentar urbano.

E cada caixa que entra no País significa:

Não estamos a falar de substituir 100% da importação.
Estamos a falar de capturar parte do mercado interno.

Mesmo 20% já significaria milhões de meticais a circular internamente.

O factor que quase ninguém discute: altitude

É verdade que a macieira precisa de frio.
Grande parte de Moçambique não oferece as chamadas “horas de frio” suficientes.

Mas isso não significa impossibilidade.

Regiões de altitude em Manica, partes de Tete e zonas específicas do Niassa têm microclimas que permitem experiências produtivas. Não por acaso, países com condições semelhantes já produzem:

  • Zimbabwe (Eastern Highlands)
  • Malawi (zonas altas)
  • África do Sul (regiões montanhosas do Western Cape)

A diferença não está apenas no clima.
Está na organização, na investigação e na política agrícola.

O ângulo que interessa: cadeia de valor

Se analisarmos friamente, a maçã é mais do que fruta.

É cadeia económica:

  • Viveiros e produção de mudas
  • Agricultura comercial
  • Armazenamento frigorífico
  • Transporte especializado
  • Processamento (sumos, compotas, polpas)
  • Distribuição moderna

Cada etapa gera emprego.

Moçambique debate-se constantemente com desemprego juvenil rural.
Mas raramente aposta em culturas alternativas de maior valor agregado.

Continuamos presos à lógica tradicional:

  • Milho
  • Mandioca
  • Feijão

São essenciais? Sim.
Mas não criam cadeias de valor sofisticadas nem agro-indústria estruturada.

O problema estrutural

A verdade nua e crua:

  • Não há estudos agronómicos nacionais robustos sobre macieira adaptada ao nosso clima.
  • Não há incentivos específicos para fruticultura de clima temperado em zonas altas.
  • Não há política clara de substituição estratégica de importações agrícolas.
  • O sector privado não arrisca porque o Estado não lidera com investigação.

Resultado?
O supermercado continua a vender maçã estrangeira.

Dependência silenciosa

É curioso que falemos tanto de soberania alimentar, mas aceitemos passivamente a dependência em produtos com mercado garantido.

A maçã tornou-se um símbolo silencioso dessa contradição.

Não produzimos porque “não é tradição”.
Mas também não investigamos seriamente para saber até onde podemos ir.

E enquanto não investigarmos, continuaremos a importar.

O que faria sentido fazer

Se quisermos ser estratégicos — e não apenas reactivos — o caminho é claro:

  1. Investimento em investigação agronómica nas zonas de altitude.
  2. Testes com variedades de baixa exigência de frio.
  3. Parcerias público-privadas para produção piloto.
  4. Linhas de crédito específicas para fruticultura de médio prazo.
  5. Planeamento regional orientado à especialização produtiva.

Não se trata de romantizar a maçã.
Trata-se de racionalidade económica.

Moçambique não é um país produtor de maçã em escala comercial.

Mas dizer que não pode ser é falta de visão.

Existe mercado.
Existe altitude.
Existe juventude rural disponível.

O que falta é estratégia.

E enquanto não houver estratégia, continuaremos a pagar em divisas aquilo que poderíamos, pelo menos parcialmente, produzir em casa.

A questão não é agrícola.

É económica.

Naldo Agostinho

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