MOÇAMBIQUE ENTRA NA ERA DO 5G

Moçambique deu um dos passos mais significativos da sua história recente no domínio das telecomunicações ao anunciar oficialmente o início da implementação da tecnologia de quinta geração móvel (5G), uma decisão que surge acompanhada da inauguração de um moderno Sistema Integrado de Comunicações de Emergência destinado a fortalecer a capacidade nacional de prevenção, coordenação e resposta a calamidades naturais.

Os dois acontecimentos dominaram a V Conferência Nacional das Comunicações, organizada pela Autoridade Reguladora das Comunicações de Moçambique (INCM), reunindo decisores políticos, especialistas nacionais e estrangeiros, operadores de telecomunicações, representantes de organizações internacionais e parceiros de cooperação sob o lema “Comunicações como Pilar da Transformação Digital em Moçambique: Conectividade, Inclusão e Resiliência”.

Durante o programa “A Semana com Salomão Moyana”, transmitido pela MBC TV Moçambique e moderado por José Belmiro, o analista político Salomão Moyana considerou que o País atingiu “um patamar bastante elevado” ao combinar a expansão das telecomunicações com o fortalecimento dos mecanismos tecnológicos de protecção da população contra fenómenos climáticos extremos.

Segundo Moyana, trata-se de um investimento cuja importância vai muito além da simples melhoria da velocidade da Internet.

“Estamos perante uma transformação estrutural do Estado. As comunicações deixaram de ser apenas um serviço para passarem a constituir um instrumento de desenvolvimento, segurança e soberania nacional.”

A observação do analista encontra respaldo nas posições apresentadas durante a conferência pelo Presidente da República, Daniel Chapo, e pela Presidente do Conselho de Administração do INCM, Helena Fernandes, ambos defensores de uma transformação digital assente na inclusão social, expansão da conectividade e fortalecimento da capacidade institucional do Estado.

Um longo percurso até ao 5G

A chegada do 5G não representa um acontecimento isolado.

É o culminar de um processo iniciado há vários anos com a liberalização progressiva do mercado das telecomunicações, expansão da cobertura móvel, investimentos em fibra óptica e modernização das infra-estruturas nacionais.

Durante décadas, Moçambique viveu sucessivas etapas tecnológicas.

Primeiro surgiu a telefonia analógica.

Seguiu-se a digitalização das redes móveis.

Depois vieram as tecnologias 2G, 3G e posteriormente o 4G, que permitiram massificar o acesso à Internet móvel.

Contudo, o crescimento económico, a digitalização da administração pública, a modernização da banca, do comércio electrónico, da indústria mineira, da agricultura inteligente e dos serviços públicos passaram a exigir redes significativamente mais rápidas, seguras e com menor tempo de resposta.

É precisamente nesse contexto que surge o 5G.

Segundo especialistas internacionais presentes na conferência, esta tecnologia permite velocidades dezenas de vezes superiores às actualmente disponíveis, reduz drasticamente o tempo de latência e cria condições para o desenvolvimento de novas aplicações baseadas em inteligência artificial, cidades inteligentes, telemedicina, ensino à distância, agricultura de precisão, veículos autónomos e automatização industrial.

Licenças entregues aos três operadores nacionais

Um dos momentos mais marcantes da conferência foi a entrega oficial das licenças de espectro radioeléctrico às três operadoras nacionais de telefonia móvel.

As novas licenças autorizam a implementação do 5G e a continuação da expansão da cobertura 4G em todo o território nacional.

Na ocasião, Helena Fernandes explicou que o processo não se limita à atribuição de frequências.

Cada operador assumiu obrigações concretas perante o Estado.

Entre elas destacam-se:

  • implementação do 5G em todas as capitais provinciais até meados de 2027;
  • expansão da cobertura para zonas industriais, corredores logísticos e pólos económicos;
  • reforço da cobertura em hospitais, escolas e instituições públicas;
  • aumento da cobertura 4G nas zonas rurais;
  • disponibilização de cerca de 700 mil smartphones subsidiados para facilitar a inclusão digital da população.

A responsável frisou igualmente que o espectro radioeléctrico constitui um recurso estratégico do Estado, cuja utilização deve traduzir-se em benefícios concretos para os cidadãos e para a economia nacional.

O elogio de Salomão Moyana ao trabalho silencioso do INCM

Durante a análise televisiva, Salomão Moyana fez uma apreciação particularmente elogiosa à forma como o INCM tem conduzido o processo.

Segundo afirmou, a instituição tem privilegiado resultados concretos em detrimento da exposição mediática.

O analista destacou o papel desempenhado pela Presidente do Conselho de Administração, Helena Fernandes, considerando que o regulador das comunicações tem conseguido implementar reformas estruturantes “sem grandes alaridos”, concentrando esforços na modernização efectiva do sector.

Na perspectiva de Moyana, a evolução tecnológica actualmente observada demonstra uma mudança de paradigma na forma como o Estado encara as comunicações.

Já não se trata apenas de regular operadores ou licenciar frequências.

O objectivo passa agora por colocar as telecomunicações ao serviço da economia, da administração pública, da protecção civil, da educação, da saúde e da segurança nacional.

Essa visão coincide com a posição defendida pelo próprio INCM durante a conferência, segundo a qual as comunicações constituem hoje um dos principais pilares do desenvolvimento sustentável e da competitividade das nações.

Novo sistema de comunicações de emergência pretende salvar vidas durante ciclones e cheias

Mas a transformação apresentada durante a V Conferência Nacional das Comunicações não se resume ao lançamento do 5G.

Paralelamente à aposta nas telecomunicações de nova geração, o Governo e o Instituto Nacional das Comunicações de Moçambique (INCM) formalizaram a entrega de um moderno Centro Tecnológico de Telecomunicações ao Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), equipamento que passa a reforçar o funcionamento do Centro Nacional Operativo de Emergência (CENOE).

A iniciativa surge numa altura em que Moçambique continua entre os países africanos mais afectados por eventos climáticos extremos.

Nos últimos anos, ciclones tropicais, tempestades severas, cheias, secas prolongadas e epidemias provocaram milhares de vítimas, destruição de infra-estruturas públicas e privadas, perdas agrícolas e elevados custos para a economia nacional.

Os ciclones Idai (2019), Kenneth (2019), Gombe (2022), Freddy (2023), Filipo (2024) e Jude (2025), entre outros fenómenos extremos, demonstraram que a rapidez na circulação da informação pode significar literalmente a diferença entre a vida e a morte.

Foi precisamente desta realidade que nasceu a necessidade de integrar definitivamente as telecomunicações na arquitectura nacional de gestão do risco de desastres.

Segundo o INCM, um dos principais painéis da conferência foi precisamente dedicado às Comunicações de Emergência, procurando identificar mecanismos que garantam a continuidade das comunicações mesmo durante ciclones, cheias ou outras calamidades naturais, reforçando a resiliência das infra-estruturas críticas do País.

Durante o programa “A Semana com Salomão Moyana”, o jornalista e analista político considerou que esta componente da conferência possui uma importância estratégica frequentemente ignorada pela opinião pública.

Segundo explicou, quando um ciclone destrói torres de telecomunicações, corta estradas ou interrompe o fornecimento de energia eléctrica, a capacidade de coordenação das operações de socorro depende cada vez mais da existência de sistemas alternativos de comunicação.

Na sua análise, o novo centro tecnológico permitirá melhorar significativamente a capacidade operacional do CENOE, responsável pela coordenação nacional das operações de emergência.

Tecnologia deixa de servir apenas para comunicar

Salomão Moyana observou que, durante muitos anos, o cidadão comum associava as telecomunicações apenas ao telefone, à Internet ou à televisão.

Hoje, acrescentou, esse conceito tornou-se demasiado limitado.

As redes digitais passaram igualmente a desempenhar funções essenciais na meteorologia, protecção civil, monitoria ambiental, navegação aérea, segurança marítima, gestão de barragens e coordenação de operações militares e humanitárias.

Na prática, explicou, um sistema moderno de telecomunicações permite transmitir alertas quase instantaneamente às populações localizadas em zonas de risco, coordenar equipas de resgate espalhadas por centenas de quilómetros e manter contacto permanente entre instituições nacionais e organismos internacionais.

Essa visão coincide com a estratégia apresentada pelo próprio INCM.

Segundo Helena Fernandes, Presidente do Conselho de Administração da instituição, as comunicações assumem actualmente um papel central no desenvolvimento económico, mas também na inclusão social, protecção dos cidadãos e fortalecimento da resiliência nacional perante fenómenos extremos.

Continuidade de um projecto iniciado em 2025

Embora o novo centro tecnológico represente um avanço importante, trata-se igualmente da continuidade de um processo iniciado pelo INCM em 2025.

Naquele ano foi lançada a plataforma denominada “Big Data nas Telecomunicações”, concebida especificamente para apoiar o Estado na gestão de calamidades naturais.

O sistema permite o envio massivo de mensagens SMS e chamadas de voz georreferenciadas para populações residentes nas zonas ameaçadas por ciclones, inundações ou outros desastres.

A plataforma integra diversas instituições nacionais, entre elas o INCM, o INGD, o CENOE, o Instituto Nacional de Meteorologia (INAM), o Ministério da Saúde, o Ministério da Defesa Nacional, o Ministério do Interior e os operadores de telefonia móvel.

Na ocasião do lançamento, Helena Fernandes afirmou que o projecto representava “um avanço histórico” para as comunicações em Moçambique, acrescentando que “cada mensagem enviada por este sistema pode significar uma vida protegida, uma comunidade avisada e um risco mitigado”.

Especialistas em gestão de riscos consultados durante a conferência consideram que a integração entre esse sistema de alerta e as futuras redes 5G poderá reduzir significativamente o tempo de resposta das autoridades em situações de emergência.

A presença da UIT reforça o reconhecimento internacional

Outro aspecto considerado relevante foi a participação da Secretária-Geral da União Internacional das Telecomunicações, Doreen Bogdan-Martin, bem como do Secretário-Geral da União Africana das Telecomunicações, John Omo.

A presença das duas figuras demonstra o interesse internacional pela evolução do sector das comunicações em Moçambique.

Segundo o INCM, o encontro procurou posicionar o País como um actor regional comprometido com a transformação digital, a inovação tecnológica e a inclusão digital, ao mesmo tempo que promove novas parcerias para investimento em infra-estruturas modernas.

Na cerimónia de abertura, o Presidente da República defendeu que a transformação digital deve ser encarada como um instrumento de desenvolvimento económico, inclusão social e reforço da soberania nacional.

Daniel Chapo sustentou igualmente que a expansão das comunicações constitui um elemento indispensável para modernizar a administração pública, aproximar o Estado dos cidadãos e aumentar a competitividade da economia moçambicana.

Desafios permanecem enormes

Apesar do optimismo demonstrado durante a conferência, vários especialistas reconhecem que a transformação digital ainda enfrenta obstáculos significativos.

Entre eles destacam-se a limitada cobertura de Internet em algumas zonas rurais, o elevado custo dos dispositivos inteligentes para uma parte considerável da população, as dificuldades de fornecimento regular de energia eléctrica, a necessidade de reforçar a cibersegurança e a escassez de competências técnicas altamente especializadas.

O próprio INCM reconhece que persistem desafios relacionados com a inclusão digital, a acessibilidade económica aos serviços, a protecção dos consumidores e a adaptação do quadro regulatório às novas tecnologias, incluindo o 5G, a inteligência artificial, as fintech e a economia digital.

Impacto económico do 5G: banca, mineração e agricultura entram numa nova fase de digitalização em Moçambique

A introdução do 5G em Moçambique não é apenas um avanço tecnológico simbólico. Trata-se de uma mudança estrutural no modo como sectores estratégicos da economia vão operar, com impacto directo na produtividade, na eficiência dos serviços e na forma como o Estado e o sector privado se relacionam com dados, processos e decisões em tempo real.

No programa “A Semana com Salomão Moyana”, o debate centrou-se precisamente nessa dimensão: a passagem de uma economia digital básica para uma economia de alta velocidade, suportada por redes de baixa latência e grande capacidade de processamento.

Embora o anúncio do 5G tenha sido feito no contexto da V Conferência Nacional das Comunicações, o seu alcance ultrapassa o sector das telecomunicações. A experiência internacional mostra que esta tecnologia é um catalisador para a chamada Indústria 4.0, com impacto directo em sistemas bancários digitais, logística inteligente, agricultura de precisão e exploração mineira automatizada.

Em África, países como África do Sul, Ruanda e Quénia já iniciaram fases de implementação do 5G em áreas urbanas e corredores industriais, com resultados visíveis na modernização de serviços financeiros e na expansão de plataformas digitais. Moçambique entra agora neste ciclo com um atraso estrutural, mas com potencial de salto tecnológico caso a implementação seja consistente e bem regulada.

Banca digital e pagamentos móveis: aceleração do sistema financeiro

O sector bancário é um dos primeiros a ser directamente impactado pela expansão do 5G.

Em Moçambique, a digitalização financeira já avançou através de serviços como mobile banking, carteiras electrónicas e transferências instantâneas. No entanto, o sistema ainda enfrenta limitações relacionadas com velocidade de processamento, falhas de rede em zonas periféricas e custos operacionais elevados em transacções digitais.

Com o 5G, os bancos passam a ter condições técnicas para:

  • processamento quase instantâneo de transacções complexas;
  • expansão de serviços financeiros baseados em inteligência artificial;
  • reforço de sistemas antifraude em tempo real;
  • maior integração entre bancos, fintechs e operadores móveis;
  • desenvolvimento de crédito digital automatizado com análise de risco baseada em dados.

Economistas defendem que esta transformação poderá reduzir a dependência do dinheiro físico e acelerar a inclusão financeira, sobretudo nas zonas rurais onde o sistema bancário tradicional continua limitado.

No entanto, alertam também para um risco estrutural: o aumento da exclusão digital caso o acesso a smartphones e Internet de qualidade não acompanhe a expansão tecnológica.

Mineração e energia: controlo remoto e eficiência operacional

O sector mineiro, um dos pilares das exportações moçambicanas, é outro beneficiário directo do 5G.

A baixa latência desta tecnologia permite a implementação de sistemas de controlo remoto de maquinaria pesada, monitoria em tempo real de jazigos e gestão automatizada de cadeias de produção.

Em países com infra-estruturas mais avançadas, minas subterrâneas já operam com veículos autónomos, sensores inteligentes e plataformas de análise contínua de risco geológico.

Em Moçambique, onde projectos de carvão, gás natural e areias pesadas têm grande peso económico, o 5G poderá introduzir:

  • monitoria remota de operações mineiras;
  • sistemas de segurança mais eficazes para prevenção de acidentes;
  • optimização do consumo energético em unidades industriais;
  • rastreio em tempo real da cadeia logística de exportação.

No sector energético, particularmente no gás natural da Bacia do Rovuma, a digitalização poderá reforçar o controlo de infra-estruturas críticas e melhorar a eficiência operacional em ambientes de elevada complexidade técnica.

Agricultura inteligente: o salto que o campo ainda aguarda

Apesar de Moçambique ser um país predominantemente agrícola, o sector primário continua a operar com baixos níveis de mecanização e digitalização.

O 5G abre a possibilidade de introdução da chamada agricultura de precisão, baseada em sensores, drones, análise climática e gestão inteligente de solos.

Na prática, isso significa:

  • monitoria remota de plantações;
  • previsão mais exacta de colheitas;
  • optimização do uso de água e fertilizantes;
  • redução de perdas pós-colheita;
  • acesso directo dos produtores a mercados digitais.

Especialistas em desenvolvimento rural sublinham, porém, que este avanço dependerá menos da tecnologia em si e mais da capacidade de formação dos produtores e da criação de infra-estruturas de apoio no terreno.

Sem electrificação rural e sem literacia digital, o impacto do 5G na agricultura poderá permanecer limitado às grandes empresas agrícolas, deixando de fora o pequeno produtor, que constitui a maioria.

Saúde e educação: promessa de modernização estrutural

O sector da saúde é frequentemente apontado como um dos maiores beneficiários das redes 5G.

A baixa latência permite consultas médicas remotas com elevada precisão, transmissão de exames em tempo real e apoio digital a cirurgias complexas realizadas à distância.

Em Moçambique, onde o acesso a especialistas é desigual entre Maputo e as províncias, esta tecnologia pode reduzir significativamente as assimetrias no sistema nacional de saúde.

Na educação, o 5G cria condições para:

  • ensino à distância em alta qualidade;
  • plataformas de aprendizagem interactiva;
  • acesso digital a conteúdos internacionais;
  • integração de inteligência artificial no processo de ensino.

Contudo, analistas alertam que a simples introdução da tecnologia não resolve problemas estruturais antigos, como falta de professores qualificados, insuficiência de equipamentos e desigualdade no acesso à Internet.

Desafios estruturais: energia, custo e exclusão digital

Apesar do entusiasmo institucional, a implementação do 5G em Moçambique enfrenta desafios concretos e bem identificados.

O primeiro é a infra-estrutura energética. Muitas zonas do País ainda dependem de redes eléctricas instáveis, o que compromete a operação contínua de sistemas digitais avançados.

O segundo é o custo dos equipamentos. Smartphones compatíveis com 5G continuam fora do alcance de grande parte da população, o que pode criar uma divisão digital mais profunda entre zonas urbanas e rurais.

O terceiro é a cobertura de rede. Embora as operadoras tenham planos de expansão, a geografia do País, a dispersão populacional e o custo de instalação de torres tornam o processo lento e financeiramente exigente.

Finalmente, há o desafio da cibersegurança. Com o aumento da conectividade, cresce também o risco de ataques informáticos, fraudes digitais e exposição de dados sensíveis.

Um salto tecnológico com exigência política e institucional

O lançamento do 5G em Moçambique representa, no plano simbólico e técnico, a entrada formal do País numa nova fase da economia digital global.

Mas o impacto real desta tecnologia dependerá menos do anúncio e mais da execução.

Sem políticas públicas consistentes, investimento contínuo em infra-estruturas, formação de quadros técnicos e inclusão digital efectiva, o 5G corre o risco de se tornar um instrumento de desigualdade tecnológica em vez de um motor de desenvolvimento.

No programa analisado por Salomão Moyana, a leitura foi clara: o País está perante uma oportunidade histórica, mas também perante um teste de capacidade institucional.


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