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Internet em Moçambique: Entre o consumo passivo e a oportunidade perdida para um futuro digital

Por: Agostinho Muchave

Moçambique celebra 50 anos de independência num contexto global profundamente conectado. A internet — rede mundial que existe desde 1969 — chega hoje a mais de 6,96 milhões de moçambicanos, cerca de 19,8% da população (DataReportal, Jan/2025). No entanto, grande parte deste acesso é consumido, não produzido; absorvido, não convertido em valor económico directo.

O custo da internet no país ainda é elevado. Segundo estimativas baseadas em pacotes da Tmcel, Vodacom e Movitel, um jovem moçambicano gasta em média entre 200 e 2 000 MZN/mês com dados móveis:

Perfil de usoDados/mêsCusto (MZN)Exemplos
Leve3–5 GB200–500WhatsApp, redes sociais básicas
Moderado10–20 GB500–1 500Redes sociais, YouTube, estudos/trabalho
Intenso30–60 GB800–2 000Vídeo diário, jogos, uploads

Este consumo, multiplicado por milhares de jovens, representa milhões de meticais mensais circulando em dados — mas raramente retornando como rendimento.

A matemática do desperdício

Um jovem moderado (10–20 GB/mês) investe, em média, 1 000 MZN/mês em internet. Se 1 milhão de jovens fizesse o mesmo, o país teria um gasto de 1 bilião de MZN/ano apenas em dados móveis. O problema não está no acesso, mas na utilização: a maior fatia é dedicada a WhatsApp Status, TikTok e scroll infinito — conteúdos consumidos, não criados.

Plataformas como YouTube, TikTok ou Instagram pagam criadores de conteúdo. Com a mesma internet usada para ver vídeos, seria possível produzir vídeos, podcasts, blogs ou infográficos capazes de gerar receita via anúncios, patrocínios e vendas digitais.

O que se perde no WhatsApp e TikTok

Estudos globais demonstram que jovens passam entre 2 a 5 horas/dia em redes sociais. Em Moçambique, esse tempo poderia representar:

  • 500–1 000 horas/ano por pessoa;
  • Tempo suficiente para aprender programação básica, criar um canal no YouTube ou desenvolver um pequeno negócio online;
  • Potencial de formar comunidades digitais que resolvam problemas locais (agricultura, educação, turismo, saúde).

A internet não é somente um meio de comunicação — é uma plataforma de produção e exportação digital. E, no contexto de desemprego juvenil elevado, ignorar isso é perder uma alavanca de desenvolvimento.

50 anos depois da independência: o que mudou e o que falta mudar

Em 1975, Moçambique herdava uma economia dependente da exportação de matérias-primas e do trabalho físico. Hoje, poderia estar a exportar também serviços digitais, conteúdos culturais e conhecimento. Países como Ruanda e Nigéria apostaram no ecossistema digital para criar novas indústrias e empregos sem fronteiras.

O mercado de conteúdos digitais cresce globalmente, e com o apoio de inteligência artificial (IA), criar vídeos, escrever textos, traduzir conteúdos, desenhar e programar tornou-se mais rápido e acessível. Ferramentas como ChatGPT, Canva, CapCut, Runway e Midjourney podem transformar um smartphone num estúdio multimédia.

Uso Passivo Uso Produtivo Potencial de Ganhos (Estimativa)
Assistir vídeos de entretenimento por horas sem gerar retorno. Gravar vídeos educativos ou tutoriais e publicar no YouTube monetizado. 500–5.000 MZN/mês (dependendo de visualizações)
Consumir redes sociais apenas para lazer. Gerir redes sociais de pequenos negócios locais (serviço de Social Media). 1.500–7.000 MZN/mês por cliente
Participar apenas como espectador em lives e webinars. Organizar webinars pagos ou com patrocínio. 1.000–10.000 MZN/evento
Baixar músicas e filmes sem retorno financeiro. Produzir conteúdos próprios e vendê-los online (e-books, música, design). 300–15.000 MZN/mês
Jogar online apenas por diversão. Criar canais de streaming de jogos (Twitch, YouTube Gaming). 800–6.000 MZN/mês
Usar dados móveis só para conversas informais. Oferecer serviços de freelance (tradução, copywriting, design). 2.000–20.000 MZN/mês

Dica: 1GB pode gerar retorno se for usado para criar, vender ou promover algo, não apenas consumir.

Internet como motor de desenvolvimento comunitário

A conectividade poderia:

  • Digitalizar microeconomias locais, criando marketplaces comunitários;
  • Criar canais de turismo virtual para atrair visitantes e investidores;
  • Estimular cursos online para capacitar jovens em tecnologias emergentes;
  • Fomentar jornalismo local digital para dar visibilidade a problemas e soluções comunitárias.

Se cada jovem criasse somente um produto digital ou serviço por mês, Moçambique poderia ter milhões de activos digitais circulando globalmente, competindo por atenção e gerando receita em moeda forte.

Da dependência ao protagonismo digital

A internet é, simultaneamente, o maior gasto e a maior oportunidade para a juventude moçambicana. O desafio é transformar consumo em produção, entretenimento em valor, scroll em ação. Em vez de somente seguir tendências globais, há espaço para criar tendências locais com impacto internacional.

Moçambique, a meio século da independência, tem na palma da mão — literalmente — a chance de reescrever a sua história económica. A escolha está em usar a rede como um espelho passivo do mundo ou como um motor activo de inovação, emprego e desenvolvimento comunitário.

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