Um homem identificado como senhor Moreira, residente há quase 50 anos numa casa modesta de zinco no coração de uma zona nobre da capital, está a ser expulso por pressão de vizinhos que alegam que a sua moradia já não combina com o “luxo de colunas de betão” que domina a área.
A pequena dependência, herdada no período das nacionalizações, foi durante décadas o espaço de sobrevivência de Moreira, antigo empregado de um comerciante português. Ali construiu a sua vida em silêncio, trabalho e resistência, num pedaço de cidade que agora é alvo de forte especulação imobiliária.
“Eu também estou ali desde 1953, tenho 40 anos. Eles querem vender, meter carros, porque têm parques. Dizem que não querem viver com o pobre”, desabafou Moreira, denunciando uma sentença social que mede o valor de um homem pelas paredes da sua casa.
O conflito chegou ao tribunal, mas segundo Moreira, o processo transformou-se em um labirinto de custas e decisões sem julgamento real.
“O problema nunca é julgado. As sentenças vêm, vão de secção para secção. É uma atrapalhaça de ladrão”, acusou.
Entre recursos e notificações, o morador afirma ter perdido também oportunidades de emprego, devido a alegadas perseguições movidas pelo mesmo vizinho que o acusa.
“Sempre que arranjo trabalho, aparecem notificações de tribunal. Assim perco o emprego. Estou cheio de sentenças.”
O relógio marcou a hora da execução. Diante da resistência do morador, as autoridades recorreram à força para cumprir a ordem judicial.
O homem apontado como reclamante do espaço, em breves declarações, evitou detalhar:
“Gostaria de não prestar esclarecimentos agora, porque estamos no meio de uma confusão. O tribunal tem tudo para mostrar. O processo levou os seus trâmites legais até hoje.”
Entre o zinco e Moreira e o betão dos vizinhos, ficou suspensa uma questão que ecoa para além do caso:
Será que a dignidade de um homem também se mede pelo material das suas paredes?
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