Em vésperas das presidenciais de 18 de Janeiro de 2026, o almirante Henrique Gouveia e Melo, candidato à Presidência da República de Portugal, dá sinais de que sua campanha não será só sobre retórica cómoda, mas sobre confrontar problemas reais: imigração, integração, radicalismo ideológico e relações internacionais. Em entrevista recente concedida à CNN Brasil, ele abordou vários temas espinhosos. A seguir, tudo o que disse.
Portugal, país de cerca de 10 milhões de habitantes, recebeu “nos últimos cerca de 4 anos… 1 milhão e meio de pessoas a mais”. Gouveia e Melo admite que isso pressionou serviços públicos, hospitais e habitação, e que “algumas destas culturas… não se integraram bem”, resultando na criação de “bolsas… quase guetos… com fácil identificação”.
Mas ele enfatiza: a comunidade brasileira se diferencia nitidamente desse cenário. “A comunidade brasileira fala a mesma língua, tem a mesma cultura e integra-se sem nenhum problema dentro da grande comunidade que é a comunidade portuguesa.” Segundo ele, “parece-me a mim difícil conseguir distinguir dentro das comunidades que se isolem, sendo essas comunidades brasileiras.”
Sobre a nova lei que endurece regras migratórias — em particular uma disposição que permite retirar nacionalidade a quem comete crime grave — Gouveia e Melo afirma que essa norma está a ser contida por especialistas constitucionais: “para alguns constitucionalistas isso não é legal em termos da nossa constituição.” A lei já foi ao Tribunal Constitucional, “foi chumbada e voltou ao parlamento para ser alterada.”
Perguntado se a comunidade brasileira deve temer efeitos directos da nova legislação, ele responde:
“Bem, tem algum motivo para se preocupar, mas ainda é muito prematuro e estou convencido de que o nosso governo, a própria sociedade portuguesa vai reagir positivamente… Eu fui… fui resultado de um processo desses… no meu coração, esse acolhimento que os brasileiros deram sempre aos portugueses é qualquer coisa que nós temos obrigação moral e ética de retribuir aos brasileiros.”
Nas palavras dele:
“Estes impactos a existir serão mais sobre comunidades que não têm uma afinidade cultural e histórica com Portugal.”
Houve, segundo ele, alguns casos de hostilidades ou preconceito contra imigrantes brasileiros, mas:
“Sim. São, acredito que sejam… casos pontuais… esses momentos… ferem a sensibilidade geral dos portugueses.”
Ele distingue entre comunidades de língua portuguesa — Brasil, Angola, etc. — e outras com “culturas muito diferenciadas, com uma religião também muitas vezes muito diferenciada”. Ele usa essa diferença para explicar por que “tudo o que é diferente estranha”.
Gouveia e Melo traz uma narrativa pessoal para reforçar a legitimidade da sua posição. Ele viveu no Brasil entre os 14 e os 18 anos, “entre os 14 e os 18 anos”. Volta a esse passado para sublinhar que o acolhimento brasileiro aos emigrantes portugueses cria uma obrigação moral:
“Portugal foi um país de emigrantes que foi para o mundo inteiro e o Brasil recebeu-nos sempre de braços abertos… no meu coração… temos obrigação moral e ética de retribuir aos brasileiros.”
Quanto ao momento diplomático, ele rejeita cálculos políticos sobre quando se encontraria com o Presidente brasileiro — eleito ou reeleito:
“Não, eu acho que não faz sentido nem esperar, nem fazer esses cálculos. … se eu for eleito… farei o encontro o mais rapidamente possível. … Porque eu acho que a relação Portugal Brasil deve ser fortalecida.”
Para ele, Portugal, Brasil e países africanos de língua portuguesa formam um potencial eixo estratégico no Atlântico, com reciprocidade cultural e oportunidades económicas. Ele fala de uma “economia no Atlântico Norte e e no Atlântico Sul que se deve juntar numa grande economia do Atlântico”.
Gouveia e Melo mostra preocupação com polarização, discurso de ódio e extremismos:
“Os mecanismos que funcionam para a desinformação também têm que ser usados para funcionarem para a boa informação. … O mecanismo básico que está a matar a democracia… é a geração de ódio com base em desinformação.”
Ele adverte que os partidos do centro, ao adoptarem políticas que imitam a extrema-direita para tentar neutralizar o avanço deste espectro, podem estar, na verdade, a alimentá-lo:
“Será que vai resultar ou não? Será que os partidos do centro ao deslocarem-se para o extrem[ismo] … fazendo as mesmas políticas… vão alimentar mais ainda à extrema-direita ou não?”
Sobre o Oriente Médio: ele afirma ser defensor do Estado de Israel, mas condena as ações do actual governo israelita, falando de punição desproporcional:
“Comecei a divergir não do Estado de Israel, mas do actual governo de direita radical… que está a fazer uma punição bíblica de proporções bíblicas a um povo que, como povo, é inocente… Está muito perto de entrar numa classificação de extermínio ou genocídio.”
Reconhece, porém, que o Estado palestino ainda não se concretiza de imediato:
“Nem território, nem organização política existe… esse Estado da Palestina ao ser formado tem que garantir a segurança do Estado de Israel…”
Em seu discurso, ele olha para a China com cautela e realismo, não com hostilidade automática. Ele enxerga no gigante asiático um parceiro económico que impulsiona desenvolvimento global:
“Vejo um papel da China, em termos económicos, eh, um papel positivo, porque é o desenvolvimento da economia mundial…”
Mas avisa que o mundo actual exige uma nova ordem internacional, não aquela concebida em 1945:
“A ordem mundial foi feita… em 1945. Essa ordem mundial já não reflete o mundo actual. O perigo é substituir essa ordem mundial por uma ordem em que não há leis, não há regras, a não ser uma única, a lei do mais forte.”
Ele defende que democracias e autocracias convivam sob regras, e que a prosperidade — não o medo ou o confronto — deva ser o motor da política internacional.
Henrique Gouveia e Melo apresenta um conjunto de promessas e diagnósticos que soam coerentes, principalmente para quem está farto de discursos politicamente correctos vazios. Ele aposta em clareza: se há problema de integração, identifique-o; se há lei controversa, leve ao Tribunal Constitucional; se há polarização, peça responsabilização pela informação.
Por outro lado, há lacunas práticas: ele reconhece que algumas comunidades “não se integram bem”, mas não detalha como evitar guetos ou como promover integração de forma sistemática. Fala de valores, identidade, reciprocidade histórica — todos importantes — mas para converter isso em política concreta será preciso superar inercias institucionais, resistências populares e interesses políticos que preferem discursos fáceis.
Uma questão permanece: a lei migratória que prevê retirada de nacionalidade em crimes graves. Ele afirma que constitucionalistas a consideram ilegal, e que ela já foi chumbada. Mas há dúvida sobre como será modificada, aplicada, ou se haverá mais normas similares.
Henrique Gouveia e Melo propõe uma visão de Presidente que vai além do cerimonial: imagina um chefe de Estado que age como ponte entre culturas, guarda da democracia, catalisador de um sonho atlântico comum entre Portugal, Brasil e África lusófona. Seu discurso é ambicioso, talvez excessivamente idealista, mas oferece algo raro num cenário político saturado: uma proposta de identidade e humanidade ao lado da racionalidade.
Se vencer, vai precisar provar que pode transformar “sonho” em política concreta. E o eleitor, em 2026, terá de decidir se prefere segurança ou esperança, medo ou integração — se prefere a lei do “mais forte” ou uma ordem construída sobre regras e solidariedade.
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