A noite caiu sobre Bissau com a mesma tensão que se sente antes de uma trovoada. Um silêncio estranho dominava a cidade, pontuado apenas pelos ecos distantes de disparos que, horas antes, tinham gelado o país. Na sede das instituições, portas fechadas. Nas ruas, o olhar desconfiado de quem sabe que, na Guiné-Bissau, a instabilidade não avisa quando chega.
Foi neste cenário que Filipe Nyusi, Chefe da Missão de Observação Eleitoral da União Africana (UA), falou do que viu, do que ouviu e do que o surpreendeu neste ciclo eleitoral que prometia ser calmo, até deixar de ser.
A missão da UA aterrou em Bissau a 19 de Novembro, com mandato claro: observar, não mediar, nem proclamar resultados. A delegação encontrou-se com o CNE, com o Presidente cessante Umaro Sissoco Embaló, com ministros-chave e com embaixadores acreditados no país. O roteiro era simples: garantir que o processo decorresse dentro da legalidade.
Nyusi fez questão de repetir, no seu tom habitual de firmeza, que a UA não tinha qualquer papel na validação de resultados.
“É preciso deixar claro que há uma confusão sobre o que é uma missão de observação. Não ditamos resultados. Este país tem o seu CNE, tal como Moçambique. Nós fomos convidados a observar.”
A missão espalhou-se por todas as sete regiões e acompanhou de perto o dia da votação, a 23 de Novembro. A avaliação foi positiva: ambiente pacífico, segurança discreta, mesas instaladas em locais abertos para permitir maior fiscalização pública.
Nyusi relatou o que presenciou em mais de vinte mesas de voto. A contagem era feita em voz alta, nome por nome, voto por voto.
“Contavam publicamente. Diziam: João, Alberto, João, Alberto. Todos a ver. No fim celebravam, aplaudiam. Foi assim em todo lado.”
O ambiente, até então, era de normalidade. As missões de observação preparavam-se para divulgar declarações preliminares e aguardavam a proclamação dos resultados, prevista até 27 de Novembro, embora a lei permitisse um prazo de até dez dias.
No momento em que a UA se reunia com o candidato Fernando Dias, o cenário mudou de forma abrupta. Sons de tiros ecoaram na zona da sede do CNE, no bairro presidencial e perto do Ministério do Interior.
“A informação chegou de repente: havia tiroteios. Ninguém sabia quem estava a disparar, contra o quê e porquê.”
A Missão tentou deslocar-se ao CNE para perceber a situação, mas a zona estava ocupada pela polícia, que bloqueou o acesso. Horas depois, os militares emitiram um comunicado anunciando a suspensão do processo eleitoral, apesar de este se encontrar praticamente concluído.
Nyusi lamentou a interrupção.
“Não sabemos porquê foi suspenso quando estava no fim. Apelámos para que o processo seja concluído.”
Com a cidade sob recolher obrigatório e vários serviços encerrados, começaram a circular rumores sobre detenções e perseguições políticas. O candidato Fernando Dias terá afirmado que sofreu uma tentativa de sequestro, mas que estaria em segurança. Embaló, segundo vários relatos, encontrava-se recolhido.
Nyusi não confirmou nenhuma destas versões.
“Se uma pessoa diz que está nessa situação, temos que acreditar. Mas não temos confirmação oficial.”
O Chefe da Missão voltou a sublinhar que a proclamação de resultados é responsabilidade exclusiva do CNE.
“Os observadores não podem influenciar o processo. Não fazemos juízos das razões da acção militar.”
Enquanto várias delegações internacionais abandonaram Bissau após os disparos, a Missão da UA decidiu permanecer no país.
Nyusi explicou que as ligações aéreas continuam abertas e que a decisão de ficar prende-se com o compromisso de acompanhar a evolução dos acontecimentos de forma responsável, ainda que a solução final caiba sempre aos guineenses.
A declaração conjunta da UA, CEDEAO e CPLP reiterou a necessidade de retomar o processo eleitoral e devolveu a questão essencial ao órgão legalmente competente: o CNE.
Bissau acordou hoje sem certezas. O processo eleitoral continua paralisado. As instituições tentam reposicionar-se no meio da confusão. A população, habituada a conviver com turbulências políticas, espera apenas que esta não seja mais uma crise prolongada.
A Missão de Observação da UA mantém a mesma mensagem: eleições livres e ordeiras foram observadas; agora, cabe às autoridades guineenses explicar as razões da suspensão e garantir que o país não fica preso ao ciclo de instabilidade que o tem marcado.
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