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Criar filhos na era digital com ciência

Já se perguntou como navegamos pelo labirinto da parentalidade moderna, especialmente quando se trata das telas e da complexa vida interior dos nossos filhos? Se sim, você não está sozinho. A Dr.ᵃ Jacqueline Nesi, psicóloga e professora da Brown University, autora da newsletter Technosapiens, tem se dedicado a cortar o ruído e a nos oferecer informações baseadas na ciência — mas que ressoam com a vida real. Hoje, vamos mergulhar nas suas perspectivas sobre o que realmente importa na criação de filhos na era digital.

Resumo para Sapiens Ocupados

  • A ciência da parentalidade não é simples, mas é essencial: A parentalidade eficaz baseia-se em evidências — que vão além de estudos académicos — e requer tanto a experiência dos pais quanto a consideração das características individuais de cada criança.
  • Afecto e estrutura são fundamentais: A chamada “parentalidade autoritária”, caracterizada por altos níveis de carinho e regras claras, é o “Polo Norte” do desenvolvimento infantil saudável.
  • Desmistificando o mundo digital: As telas e redes sociais não são intrinsecamente más. O contexto, o conteúdo e o equilíbrio fazem toda a diferença. Em vez de focar na histeria em torno da dopamina e do “vício”, é mais produtivo pensar em usos saudáveis.
  • Adolescência: uma fase de oportunidades: Longe de ser apenas um “desastre”, esse é um período único de crescimento em que adultos podem moldar positivamente os jovens, fornecendo o que precisam para prosperar.
  • Problemas comuns, soluções baseadas em evidências: Seja para gerenciar o tempo de tela, melhorar o sono ou cultivar a gratidão, a ciência oferece estratégias práticas para os desafios diários da parentalidade.

O Mundo Digital e Nossos Filhos: Uma Perspectiva Nuanceada

O debate sobre telas e saúde mental adolescente costuma ser binário, mas Nesi lembra: “a verdade está em algum lugar no meio”. Ela afirma que há uma boa probabilidade (estima cerca de 75%) de que as redes sociais contribuam para a crise de saúde mental dos adolescentes. No entanto, enfatiza que essas crises são fenómenos complexos e multifactoriais. Se nos fixarmos apenas na mídia social como a causa, corremos o risco de negligenciar outros factores cruciais para apoiar o bem-estar mental juvenil.

Quanto aos jogos violentos, a pesquisa também é matizada. Há indícios de que eles podem aumentar o risco de comportamentos agressivos — mas não necessariamente de violência ou criminalidade duradoura. Esses riscos são considerados pequenos, e variáveis como ambiente familiar e personalidade da criança provavelmente têm peso maior. Nesi também lembra que, para muitos adolescentes, os videogames oferecem oportunidades valiosas de conexão com os amigos.

E sobre a temida dopamina? Nesi combate o mito de que ela atinge níveis perigosos com o uso de telas, provocando vício e outros efeitos negativos. Ela explica que a dopamina é fundamental para o funcionamento humano, participando não apenas do prazer, mas também da motivação. Embora esteja envolvida no uso de telas, isso não significa que elas sejam perigosas. Para a maioria das crianças que usam tecnologia com moderação, a dopamina não é motivo de preocupação.

Os Pilares da Parentalidade Efectiva: Afecto e Estrutura

Se fosse possível resumir décadas de pesquisas em uma só conclusão, Nesi escolheria o modelo de parentalidade autoritária (no sentido técnico do termo, não autoritarismo), que combina altos níveis de afecto com estrutura sólida.

  • Afecto é demonstrado por meio de carinho, apoio e aceitação. Implica passar tempo de qualidade, ouvir, encorajar a autonomia. Nesi compara o afecto a “encher o carro com gasolina” — essencial para seguir viagem.
  • Estrutura refere-se a limites, regras e expectativas consistentes e previsíveis. As regras devem ser comunicadas com clareza, justificadas e, conforme os filhos crescem, ajustadas em diálogo. Envolver adolescentes na criação dessas regras pode ser muito eficaz.

A disciplina, nesse modelo, é vista como um sistema para ensinar comportamentos adequados, com base em afecto, estrutura e consequências apropriadas. Nesi recorre ao condicionamento operante para explicar como os comportamentos são fortalecidos ou desencorajados. Elogiar comportamentos desejáveis, por exemplo, é um reforço positivo; ignorar comportamentos indesejados pode fazer com que desapareçam.

Adolescência: Uma Montanha-Russa de Oportunidades

Frequentemente retractada como um desastre inevitável, a adolescência — dos 10 aos 20 anos — é, na verdade, um período especial de crescimento e aprendizado. Nesi destaca seis áreas fundamentais que os adolescentes precisam cultivar:

  1. Exploração e tomada de risco: As mudanças cerebrais tornam o risco mais atraente — algo que pode ser usado a favor do aprendizado, se forem incentivadas actividades desafiadoras, como desportos ou artes.
  2. Significado e propósito: Contribuir em casa, na comunidade ou com os amigos ajuda o adolescente a sentir que sua vida importa.
  3. Tomada de decisão e regulação emocional: Emoções intensas fazem parte da adolescência. Ensinar estratégias como atenção plena, autocuidado e distracção construtiva ajuda no equilíbrio emocional.
  4. Apoio de adultos carinhosos: Mesmo parecendo autos suficientes, os adolescentes ainda precisam de vínculos sólidos com pais, professores e mentores.
  5. Desenvolvimento de valores e identidade: Esse é o tempo de descobrir “quem eu sou”. Dê espaço para a experimentação e apoie os adolescentes na definição de seus próprios objectivos e crenças.
  6. Respeito e status social: Os adolescentes se importam intensamente com respeito e reputação. Precisam de formas saudáveis de conquistar status — como responsabilidades reais e validação de suas ideias.

Desafios Comuns e Soluções Práticas

  • Derretimentos pós-tela: É difícil interromper algo prazeroso. Estratégias incluem escolher melhor o tipo de mídia, planear pontos de parada, conversar com a criança e manter consistência. Se os pais cedem diante de birras, ensinam que o protesto é eficaz para conseguir mais tempo de tela.
  • Sono infantil: Para os pequenos, a chave está na consistência. Técnicas como o “desvanecimento da hora de dormir”, rotinas bem definidas e métodos de extinção (gradual ou não modificada) ajudam a promover o sono independente.
  • Pensamentos intrusivos: Eles são comuns — entre 74% e 94% das pessoas os têm. A orientação é não lutar contra eles: reconheça-os, mas não os alimente. Quanto menos importância lhes dermos, menor será sua influência.
  • Cultivo da gratidão: Envolver as crianças em práticas que estimulem gratidão, como ajudar os outros, conversar sobre momentos de gratidão e modelar esse comportamento no dia-a-dia são formas eficazes de fortalecer esse valor.

Onde a Ciência e a Intuição se Encontram

Para Nesi, a parentalidade baseada em evidências é como um banco de três pernas:

  1. A melhor evidência científica disponível.
  2. A experiência, os valores e a intuição dos pais.
  3. As características, necessidades e circunstâncias das crianças.

Ou seja, embora a pesquisa ofereça directrizes sólidas, cada família precisa adaptar essas directrizes com sensibilidade e confiança. Não se trata de perfeição, mas de afecto e estrutura — validar os sentimentos dos filhos enquanto mantemos limites claros, como um piloto que acolhe os medos dos passageiros durante a turbulência, mas não solta o manche.

A parentalidade é uma jornada exigente, mas com ciência e coração, estamos mais bem preparados para guiar nossos filhos em direcção ao crescimento e à autonomia.

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