Bissau, 27 de Novembro de 2025
A Guiné-Bissau voltou a mergulhar num ciclo de instabilidade com o quinto golpe de Estado da sua história. A noite de 26 de Novembro, que deveria anteceder a divulgação dos resultados das eleições gerais, terminou com a tomada de posse do General Hortan N’ta como Presidente de Transição. O Alto Comando dissolveu instituições, suspendeu o processo eleitoral e assumiu-se como autoridade máxima do Estado, prevendo uma transição de um ano.
Os militares impuseram recolher obrigatório, encerraram fronteiras, suspenderam órgãos de comunicação social e justificaram a acção como resposta a alegadas ameaças à democracia. Na declaração lida na televisão pública, o Alto Comando afirmou que actuou para travar “uma ameaça grave à estabilidade nacional”, associando-a a “actividade de narcotráfico infiltrada no processo eleitoral”.
Hortan, na primeira comunicação à Nação, apelou à união e defendeu que a intervenção foi necessária “para garantir a ordem e proteger o país de uma desintegração institucional”.
A reacção surgiu horas depois. Fernando Dias, candidato apoiado pelo PAIGC e pelo PRS, classificou o golpe como “uma invenção desesperada do Presidente Embaló”, alegando que os resultados preliminares apontavam para a sua derrota. Em vídeo divulgado nas redes sociais, afirmou que o golpe “não passa de uma manobra para evitar a leitura final dos resultados eleitorais”.
Segundo Dias, todos os rostos visíveis do golpe pertencem ao círculo directo de Embaló. Apontou Hortan, Tomás e Dinis Chama como figuras “ligadas ao Presidente” e contestou qualquer hipótese de insurreição armada da oposição: “Não temos armas, não temos militares. Nem segurança estatal nos deixaram.”
Em entrevista à DW, reforçou que houve tentativas de manipulação dos resultados por parte de estruturas próximas do governo cessante, falhadas ao nível regional e nacional.
O activista Sumaila Jaló, a partir de Lisboa, concordou com a oposição e descreveu o golpe como “uma encenação grotesca”, defendendo que Embaló percebeu antecipadamente que perderia com cerca de 51 por cento dos votos a favor de Fernando Dias.
O líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira, encontra-se detido na segunda esquadra de Bissau. Segundo Fernando Dias, a polícia cercou a sede de campanha após a saída dos observadores internacionais, disparou gás lacrimogéneo e tentou prender a liderança da coligação. Parte da equipa conseguiu escapar graças à presença de militantes no local. Pereira e Otávio foram capturados mais tarde.
O Alto Comando Militar garantiu, pela primeira vez hoje, que Umaro Sissoco Embaló, o ex-ministro do Interior, Bot Candé, e outros altos responsáveis estão “bem, mas sob custódia”.
O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, expressou “profunda preocupação” e apelou à contenção.
O deputado angolano Nelito Ekuikui classificou a situação como “uma vergonha para África”, defendendo a restituição da ordem constitucional e a libertação dos detidos políticos.
A CPLP convocou uma reunião urgente do Comité de Concertação Permanente.
Num recuo parcial, os militares reabriram o espaço aéreo. Hortan nomeou ainda o Major-General Thomas Ja para Chefe de Estado-Maior General, substituindo Bag Nant.
Acompanhe toda a entrevista abaixo:
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