O Banco de Moçambique decidiu reduzir a Taxa de Juro de Política Monetária (MIMO) de 9,75% para 9,50%, uma descida de apenas 25 pontos base que, embora pareça tímida, carrega um sinal preocupante para a economia nacional.
A decisão, anunciada pelo Comité de Política Monetária (CPMO) no comunicado de 14 de Novembro de 2025, reflecte uma conjugação de dois cenários opostos: por um lado, uma inflacção previsivelmente controlada; por outro, uma deterioração grave da situação da dívida pública interna, cuja pressão já se faz sentir no mercado financeiro.
O corte não foi apresentado como um estímulo tradicional, mas como uma resposta cautelosa num ambiente onde os riscos superam os sinais de alívio. O atraso do Estado no pagamento dos instrumentos da dívida interna tornou-se um factor dominante na decisão do banco central, elevando as incertezas e condicionando o comportamento dos investidores e credores.
Os dados que sustentam a análise do BM mostram que a inflação segue dentro de um intervalo considerado confortável. Em Outubro de 2025, a inflação anual fixou-se em 4,8%, ligeiramente abaixo dos 4,9% registados em Setembro. A inflação subjacente também caiu, ajudada pela estabilidade cambial e por preços internacionais moderados.
Mas este cenário, habitualmente favorável para cortes mais agressivos na taxa de juro, é contrariado pela situação da dívida interna. A dívida pública interna, excluindo habitação, atingiu 365,8 mil milhões de meticais em Dezembro de 2024, um acréscimo de 50,3 mil milhões num único ano. E o problema já não é apenas o montante: são os atrasos sistemáticos no pagamento desses instrumentos.
Essa falha de cumprimento gera uma reacção em cadeia: menor apetite dos investidores por títulos públicos, taxas de juro interbancárias rígidas e um ambiente de incerteza que travam a fluidez do sistema financeiro.
O CPMO foi directo ao classificar os riscos sobre a inflação como elevados, citando choques climáticos, lenta recuperação produtiva e, de forma destacada, os atrasos na dívida interna.
A Taxa MIMO funciona como referência para o custo do dinheiro na economia. Quando baixa, espera-se que o crédito se torne ligeiramente mais acessível. Mas esta redução, pelas condições que a motivam, tem um significado menos convencional.
Em termos técnicos, o banco central está a aliviar discretamente o custo do crédito num momento de fragilidade do sistema financeiro. É um sinal de alerta, não de celebração. O corte é modesto porque a situação fiscal não permite movimentos mais ousados. E é executado, ironicamente, para amortecer os impactos de uma pressão criada fora do próprio Banco de Moçambique: o incumprimento do Estado.
O CPMO assegurou que continuará atento aos riscos e pronto para ajustar a política monetária conforme a evolução da inflação e da situação fiscal. No discurso oficial, prevalece o compromisso com a estabilidade macroeconómica. Na prática, o banco central está a gerir um equilíbrio cada vez mais delicado entre incentivar a economia e evitar que a dívida interna se transforme num peso insustentável para o sistema financeiro.
A redução da MIMO é, portanto, uma intervenção técnica que reflecte uma verdade dura: a inflação está sob controlo, mas a saúde financeira do Estado não está. É um pequeno ajuste monetário dentro de um cenário onde o maior desafio é fiscal e estrutural.
A economia moçambicana entra nos próximos meses com uma política monetária prudente, uma inflação relativamente estável e uma dívida interna que exige reformas sérias. O corte da MIMO é apenas uma parte desse quadro mais amplo, que testa a capacidade do país de equilibrar disciplina fiscal, credibilidade financeira e crescimento económico sustentável.
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