Sociedade

A DRAMÁTICA SOBREVIVÊNCIA DE MAGOANINE: O LAGO DA DESGRAÇA QUE PARIU UM CARIL DE ÁGUA DOCE

Em Magoanine “C”, cidade de Maputo, o tempo não se mede em anos, mas em metros de água. O que antes foi um bairro inteiro transformou-se, ao longo de mais de uma década, numa imensa lagoa que engoliu mais de 500 casas e levou consigo a história e a dignidade das famílias que ali viviam. O cenário é de ruínas submersas, onde as antigas ruas se confundem hoje com um vasto espelho de água parada.

Desde 2014, a tragédia instalou-se de forma permanente; muitas famílias perderam a esperança de regressar às suas casas. A água já lhes chegava quase à cintura, e a única certeza é a impossibilidade de retorno, pois ainda não se sabe qual é a esperança.

Contudo, na mais profunda ironia deste desastre ambiental e social, a natureza ofereceu um amargo, mas vital, presente: a vida. Onde a água destruiu, ela também criou, transformando as inundações numa gigantesca maternidade de peixes de água doce.

Para as famílias que, sem alternativa, se viram forçadas a erguer cabanas improvisadas sobre montes de areia, lutando diariamente contra cobras e vivendo sem água potável ou energia, o lago tornou-se o seu novo, e inesperado, recurso.

Muitos moradores, que perderam tudo, encontraram na pesca uma forma de garantir a sua subsistência diária. O peixe, antes impensável naquele local, é agora a única fonte de proteína para as suas mesas, transformando a desgraça num vital caril de água doce.

Constantino Novela, um dos residentes que viu a sua vida ser submersa, relata a inesperada vocação piscícola do bairro: “Hoje, mesmo em dias difíceis, já há pescadores que tiram peixes daqui, peixes de água doce, alguns grandes.” A sobrevivência precária destas famílias está hoje ligada ao volume da água que outrora as expulsou.

O morador sugere, inclusive, que a autarquia tire partido desta macabra ironia hídrica para benefício comunitário: “Acho que, da minha forma de ver, o município poderia aproveitar e talvez fazer algo para alimentar esses peixes e aumentar a produção.”

Enquanto a lagoa de Magoanine “C” cresce e o tempo avança sem que cheguem respostas definitivas para um reassentamento urgente, a pesca permanece como um dos poucos caminhos para a sobrevivência digna no bairro submerso, na expectativa de que o município traga soluções que vão além da nova vocação do local como viveiro de peixes.

Naldo Agostinho

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